O 9º Encontro Técnico de Produção de Leite, realizado na Estação Zootécnica Nacional em Santarém, promovido pela Serbuvet, reuniu no início de fevereiro profissionais da área como produtores, médicos veterinários e consultores. De acordo com Ricardo Bexiga, médico veterinário e sócio gerente da Serbuvet, o objetivo principal do encontro foi fazer a transferência de conhecimento, abordando questões práticas e estratégicas para o setor.
“O encontro visa ajudar produtores, médicos veterinários e consultores a utilizarem tecnologia e conhecimento no campo, ao mesmo tempo que os faz refletir sobre o futuro do setor, especialmente em termos de sustentabilidade a médio e longo prazo”. Foi com esta afirmação que o responsável pela Serbuvet, explica à nossa reportagem os objetivos múltiplos do 9º Encontro Técnico de Produção de leite, que também tem a função de promover a interação entre profissionais do setor ao saírem das explorações, criando um ambiente de par tilha de ideias, técnicas e soluções para os desafios diários das explorações leiteiras.
Para tornar o evento mais dinâmico e relevante para todos os participantes, Ricardo Bexiga destacou que o programa foi estruturado com um leque alargado de temas para “ir de encontro às necessidades do setor”. Entre os tópicos aborda dos estiveram a gestão de recursos humanos, uma palestra sobre a receção, o onboarding e a retenção de colabora dores; a sustentabilidade, com destaque para as emissões de metano; e a saúde animal, com atenção especial ao cuidado com vitelos, um problema ainda presente em muitas explorações. Além disso, a água e a sua qualidade também estiveram em destaque, bem como as doenças emergentes como a gripe aviária e a febre aftosa.
À nossa reportagem Ricardo Bexiga fez questão de mencionar a presença do Ministro da Agricultura e Pescas, José Manuel Fernandes, que “abrilhantou o evento e foi uma honra a sua presença”. Sobre o discurso do Ministro que falou obviamente de alguns desafios do setor, Ricardo Bexiga diz que tocou num tema particularmente sensível aos produtores: o licenciamento de novas instalações leiteiras.
O licenciamento tem sido uma barreira para a expansão das vacarias leiteiras e, segundo Ricardo Bexiga, a procura pela sustentabilidade da produção exige o aumento da capacidade das instalações, o que se torna difícil sem a simplificação dos processos de licenciamento. “O aumento das vacarias e a obtenção de economias de escala são funda mentais para a sustentabilidade da produção de leite”, reforça Ricardo Bexiga.
As dificuldades do setor: Preço das matérias-primas e preço do leite
O responsável pela Serbuvet não hesitou em apontar as principais dificuldades que os produtores de leite enfrentam. “Os produtores estão constantemente pressionados por dois fatores que estão fora de seu controle: o preço das matérias-primas e o preço do leite. (…). Esses dois elementos condicionam fortemente a rentabilidade das explorações leiteiras. O caminho é trabalhar cada vez mais na melhoria da eficiência alimentar e na maximização da produção”, defende. Quando questionado sobre o estado do setor leiteiro em Portugal, Ricardo Bexiga observou que, infelizmente, o número de produtores tem diminuído. De 2017 a 2024, mais de 30% das vacarias leiteiras encerraram as suas atividades. No entanto, destaca que a produção de leite se tem mantido graças à concentração de animais em explorações maiores e ao aumento da eficiência produtiva.
Apesar das dificuldades, o responsável acredita que o futuro do setor é promissor, principalmente devido à crescente procura mundial por leite
José Manuel Fernandes, Ministro da Agricultura e Pescas, iniciou a sua intervenção destacando que a “cooperação é fundamental em várias frentes para o sucesso do setor agrícola, incluindo a partilha das melhores práticas e a procura das melhores soluções”.
No caso do setor do leite, José Manuel Fernandes ressaltou que, “embora o setor do leite nem sempre seja reconhecido como um dos pilares cruciais para a economia, ele tem um grande potencial de cres cimento, como por exemplo, o iogurte e o queijo”.
Para além disso, o Ministro durante a sua intervenção frisou que a agricultura, não só é fundamental para garantir a segurança alimentar, como também tem um papel de defesa, pro movendo a coesão territorial.
“Agricultura não é apenas sobre comida no prato, mas também é sobre defesa, coesão territorial (…) é indústria, é investigação e é inovação (…). Quando dizemos que o setor do leite gera mais de 640.000 empregos diretos e indiretos, muitos têm dificuldade em acreditar, mas é uma realidade”, afirma José Manuel Fernandes.
Reconhecimento e gratidão aos produtores de leite
José Manuel Fernandes expressou um profundo agradeci mento aos produtores de leite, “por nunca terem desistido num setor que, como todos sabem, está sujeito à volatilidade dos mercados, a pressões decorrentes do decréscimo do consumo e de ataques sem fundamento vindo de alguns grupos, como os radicais verdes”. Para o Ministro, é crucial esclarecer que os agricultores e produtores de leite não são vilões, mas sim aqueles que mais defendem e protegem o ambiente. “São eles, muitas vezes em empresas familiares, que têm o maior interesse na sustentabilidade, pois o objetivo é passar o legado para as gerações futuras”, sublinha o Ministro pela pasta da agricultura.