O Projeto ISOmap Forragem (isomapforragem.ipportalegre.pt , youtube.com/ watch?v=upXaUdBLq58&t=51s), liderado pelo Instituto Politécnico de Portalegre (IPPortalegre) em parceria com o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), teve como financiamento o programa Alentejo 2020 e como principal objetivo demonstrar o uso de instrumentos em mecanização agrícola – ISOBUS na tomada de decisão do uso de fertilizantes ou fitofármacos em dose fixa ou variável (VRT), promovendo a sustentabilidade dos sistemas de produção de forragens no contexto climático e edafológico da região do Alentejo.
Os ensaios foram realizados na Herdade da Comenda, em Caia (Elvas), iniciados ainda no projeto MechSmart Forages em 2017. Os ensaios incidiram em culturas anuais consocia das (gramíneas e leguminosas) e em culturas em estreme (triticale e azevém), com foco na produção de matéria seca de alto valor nutricional.
Objetivos do Projeto
O projeto teve como foco três pilares fundamentais: i) Transferência de conhecimento sobre mecanização agrícola e agricultura de precisão, utilizando a norma ISO 11783 (ISOBUS) para aplicação a dose variável de fatores de produção. ii) Desenvolvimento de itinerários culturais sustentáveis para a produção de forragens, garantindo a gestão eficiente do solo e água. iii) Criação de uma rede de transferência de conhecimento, unindo investigação, ensino superior e setor agropecuário.
A motivação do projeto baseia-se na importância da produção de forragens para a alimentação de bovinos no Alentejo – com uma percentagem de 44% do efetivo nacional, uma região de clima mediterrâneo, onde a variabilidade climática e a irregularidade das chuvas afetam negativamente a produtividade das pastagens acentuada por fenómenos meteorológicos extremos. O aumento dos custos de alimentação (cerca de 50% dois custos intermédios) e de produção de forragem por via da mecanização com custos da ordem dos 10% só em energia e lubrificantes e a necessidade de maior eficiência técnica com menor impacto ambiental tornam-se desafios que obrigam a soluções inovadoras.
Implementação e Estratégias Utilizadas
1- Sementeira Direta
A sementeira direta foi uma das principais estratégias adota das no projeto, trazendo benefícios.
Redução dos custos operacionais com a eliminação de operações de mobilização do solo;
Melhoria da estrutura e consequente fertilidade do solo, minimizando a compactação e atenuando fatores de erosão.
Num solo Pag + Sr com reduzida camada arável conjugada com um grau ligeiro a moderado de perigosidade do micro relevo do solo a técnica de sementeira direta contribuiu ainda para uma melhor gestão dos dias disponíveis para a realização das operações mecanizadas, assim como para menores custos associados a danos mecânicos causados pelas pedras durante o corte e processamento da forragem.
2. Agricultura de Precisão (AP)
O modelo de adoção da agricultura de precisão foi estrutu rado em duas fases:
Fase 1 – Análise Preparatória:
Levantamento das características topográficas da parcela e da física e química do solo assentes no uso de sensores de georreferenciação e geoelétricos - de cartas de condutividade elétrica aparente (CEa).
Caracterização meteorológica para avaliar a temperatura do ar e do solo, precipitação e teor de humidade. Definição de zonas de gestão específicas da parcela, ajustando a fertilização, aplicação de fitofármacos e rega garantindo os níveis de rentabilidade da cultura.
Fase 2 – Monitorização do Ciclo de Produção, no que respeita:
Teor de humidade do solo, permitindo o ajuste da rega em momentos críticos. À evolução do estado vegetativo da cultura e presença de plantas infestantes através de imagens de satélite e drones. Qualidade bromatológica da forragem, garantindo cortes de colheita nos momentos mais adequados.
3. Tomada de decisão - Aplicação de Fatores em Dose Variável
Decorrente da georreferenciação da parcela e do estado de evolução da cultura foram tomadas decisões em diferentes momentos para a aplicação de fertilizantes e fitofármacos em dose varável, nomeadamente:
- Herbicida de pré-emergência no controlo de plantas infes tantes à sementeira;
- Fertilização azotada nas fases de afilhamento e encana mento da cultura;
- Herbicida de pós-emergência no controlo de plantas infes tantes nos ensaios de cultura estreme.
Para qualquer dos processos contribuiu a análise de indicadores vegetativos (NDVI e NDRE) da cultura obtida a partir de técnicas de deteção remota (drone ou satélite) convertidas em mapas de prescrição aplicados por máquinas com ISOBUS – Norma 11783 protocolo de comunicação eletrónica entre tratores, máquinas operadoras e sistemas de gestão agrícolas.
Resultados e Impacto do Projeto
Os ensaios indicaram que, para uma mesma produção de biomassa, a eficiência no uso de herbicidas pode ser melhorada em até 0,25l/ha, e a uniformidade da cultura aumentou 7% com o maneio de fertilização por dose variável. A estratégia permitiu reduzir a variabilidade na produtividade, e uma maior rentabilidade da parcela no seu todo.
Ano 2021: Produção média de 6801,33 kg/ha de matéria seca. Ano 2022: Produção reduzida para 4452,49 kg/ha. A queda na produção em 2022 foi atribuída à redução da precipitação (272 mm contra 562 mm em 2021). No entanto, as técnicas adotadas permitiram manter a qualidade nutricional da forragem (valores de PB entre 13, 3% e 9,8% ao primeiro e ao segundo corte, respetivamente) e garantir um saldo final entre 256 e 350€/ha.
Conclusões e Perspetivas Futuras
O Projeto ISOmap Forragem demonstrou que a adoção da agricultura de precisão aliada à sementeira direta pode trazer ganhos significativos na eficiência produtiva da produção de forragens, reduzindo custos e aumentando a sustentabilidade do sistema agropecuário.
Entre os principais benefícios observados destacam-se:
- Otimização do uso de máquinas agrícolas, reduzindo consumo de combustível e desgaste mecânico.
- Aprimoramento do maneio da fertilização e controle de plantas infestantes, garantindo maior eficiência no uso de fatores de produção. O uso eficiente de fatores compensou o aumento dos preços dos fertilizantes e herbicidas.
- Redução da variabilidade produtiva, proporcionando maior estabilidade na produção de forragens, enquanto a monitorização do ciclo produtivo possibilitou um aumento do número de dias de pastoreio, reduzindo a necessidade de enfarda mento e armazenamento de forragem (principalmente no segundo ano de projeto).
- Desenvolvimento de metodologias replicáveis, permitindo a transferência de conhecimento para outros produtores e regiões.
Em julho de 2022, foram assinados 20 acordos de parceria com instituições do setor agropecuário para fortalecer a disseminação das inovações do projeto.