D e 3 a 5 de julho o Sabugal será palco do V Simpósio Nacional da Castanha, promovido pela Associação Portuguesa da Castanha (RefCast), a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR Centro), a Sociedade de Ciências Agrárias de Portugal (SCAP) e o próprio Município do Sabugal. Durante o evento, serão discutidos temas relevantes, como as novas tendências do maneio do souto, inovações no combate à podridão castanha e à doença da tinta, e as oportunidades de mercado para a castanha, incluindo o mercado de carbono. Em entrevista, Sílvia Nabais, vice-presidente da Câmara Municipal do Sabugal, partilha a relevância deste evento para o território e para a produção de castanha.
Qual a importância de trazer este Simpósio para o Sabugal?
Trazer o simpósio para o Sabugal é fundamental para reafirmarmos o nosso território como um produtor de castanha de excelência e para revitalizar uma tradição secular. Sabemos que somos uma zona de produção histórica desde o século XII, e é essencial retomar essa importância. Queremos valo rizar o nosso território e a nossa produção de castanha, um produto com grande potencial económico e estratégico.
Qual a importância da castanha para o concelho?
A castanha é vital em três vertentes principais. Primeiramente, há um impacto na gestão do território, promovendo a ordenação das nossas paisagens e contribuindo para a defesa contra incêndios. Em segundo lugar, a castanha tem uma vertente económica significativa, sendo uma fonte de rendimento para os produtores. Finalmente, ela contribui para a fixação da população no território, uma vez que se as pessoas virem que podem tirar rentabilidade dos seus terrenos, certamente estarão mais inclinadas a permanecer aqui e investir na sua terra.
Quantos produtores existem atualmente?
Neste momento, temos cerca de 240 a 250 produtores, com uma área total de aproximadamente 700 hectares de soutos.
Qual o valor económico da cultura da castanha na região do Sabugal?
A cultura da castanha gera atualmente cerca de 1,2 milhões de euros por ano no Sabugal. Este valor demonstra o impacto direto que a castanha tem na economia local.
Como caracterizaria o perfil do produtor de castanha?
O nosso produtor de castanha ainda é, em grande parte, uma pessoa com mais de 65 anos. Além da produção de castanha, muitos deles têm outras atividades agrícolas ou trabalham em outros setores. No entanto, a nossa grande aposta é renovar essa geração e atrair as camadas mais jovens para a produção de castanha, mostrando-lhes o valor e o potencial desta cultura.
Há novos interessados na produção de castanha?
Sim, temos sentido um aumento no interesse, especialmente após o último cadastro, que registou uma área de 700 hectares, um aumento significativo em relação aos 500 hectares do anterior cadastro. Existe uma aposta crescente na fileira da castanha e acreditamos que, com o tempo, conseguiremos renovar a produção com a entrada de novos produtores.
O que distingue a castanha do Sabugal?
A nossa castanha é reconhecida pela sua qualidade, resultado das condições geográficas e climáticas únicas do nosso território. Além disso, a pesquisa desenvolvida na Colónia Agrícola de Martim Rei tem sido fundamental para a adaptação das variedades de castanheiros ao nosso clima e solo. Todos esses fatores contribuem para a qualidade superior do nosso produto.
Qual tem sido o papel da autarquia no desenvolvi mento do setor?
A autarquia tem um papel crucial em apoiar tecnicamente os produtores, promovendo a inovação e trazendo o conhecimento diretamente ao terreno. Trabalhamos com universidades e politécnicos para garantir que os produtores tenham acesso às mais recentes inovações, sem precisar sair do território. Também fornecemos produtos fitofarmacêuticos exclusivos, como os que estão disponíveis na Colónia Agrícola de Martim Rei, e temos um técnico dedicado que trabalha diariamente com os produtores, criando uma relação de confiança que facilita a aceitação das novas práticas.
E quanto à comercialização, estão a trabalhar nesse sentido?
Sim, procuramos incentivar os produtores a adotar uma abordagem mais profissional na comercialização. Estamos a trabalhar para criar uma cooperativa ou outra estrutura que possa dar apoio à comercialização da castanha. Sabemos que há alguma resistência, mas acreditamos que, com tempo, essa questão será superada.
O que estão a fazer em relação à certificação do produto?
Estamos a trabalhar para que a castanha do Sabugal seja incluída na Denominação de Origem Protegida (DOP) Sou tos da Lapa. Já temos o estudo genético necessário para essa certificação e, embora tenha havido alguma resistência, continuamos a trabalhar nesse sentido. Caso não consigamos aderir à DOP, exploraremos outras formas de criar uma marca própria ou até associar-nos a outros territórios próximos para dar mais valor ao produto.
Voltando ao V Simpósio Nacional da Castanha. O que esperar do programa?
O programa será bastante diversificado, com conferências de oradores internacionais que vão abordar temas relacionados com a produção e transformação da castanha, além de visitas de campo. O nosso objetivo é proporcionar uma visão abrangente sobre o setor, contando também com a presença de representantes do Governo, o que seria uma forma de valorizar ainda mais o evento.
Quais são as suas expetativas para o Simpósio?
As expetativas são muito altas. Esperamos que o evento ajude a reforçar a identidade do Sabugal como um território produtor de castanha de qualidade e que traga mais visibilidade à nossa região. Também esperamos que os produtores e a população local reconheçam a importância da castanha para o desenvolvimento do território.
Há ainda muitas potencialidades a explorar na região?
Sim, o Sabugal e outras regiões do interior do país têm imensas potencialidades. Para além da castanha, temos a produção de azeitona, com potencial para o azeite, e uma agropecuária muito forte. Estes territórios ainda têm muito a oferecer e precisamos de mostrar ao país e ao mundo que somos uma região com grande capacidade produtiva.
E onde pode chegar a castanha do Sabugal?
A castanha do Sabugal já é exportada para a França e temos o objetivo de expandir ainda mais os mercados internacionais. Queremos que a castanha do Sabugal seja reconhecida pela sua qualidade e esteja presente em mais mercados, levando o nome do nosso território a nível global.
O papel da Colónia Agrícola Martim Rei
Alberto Barata, técnico Superior do Município do Sabugal e responsável pela Colónia Agrícola Martim Rei, tem desempenhado um papel crucial na investigação e desenvolvimento da cultura do castanheiro no concelho. À nossa reportagem Alberto Barata explica como a Colónia Agrícola, criada em 1988, se tornou um centro de estudo essencial para a adaptação de variedades de castanheiros às condições do Sabugal. A partir de um estudo realizado pela antiga Direção Geral Agrícola da Beira Interior, as variedades de castanheiros Martaínha, Longal e Judia destacaram-se pela sua resistência e adaptação ao clima local. Alberto Barata detalha ainda como a pesquisa se expandiu para estudar híbridos resistentes à doença da tinta, uma das principais ameaças à castanha. “Na década de 60, surgiu a doença da tinta, que afeta as raízes do castanheiro, e a necessidade de desenvolver híbridos resistentes tornou-se premente”, conta. Entre os híbridos estudados, o técnico destaca o “CA90, originário da França, que tem mostrado melhor adaptabilidade até ao momento, não sendo imune, mas resistente à doença (…). Atualmente, quer por amontoa quer in vitro, através destes dois métodos de produção vegetativa, estamos a avaliar qual dos dois se adapta melhor ao nosso conceito”.
A Colónia Agrícola Martim Rei não se limita à pes quisa, mas também oferece suporte direto aos produtores.
Alberto Barata explica que, “desde que a árvore sai do nosso viveiro, oferecemos aconselhamento completo, acompanhando a plantação e os primeiros anos do souto, que são cruciais devido à maior taxa de mortalidade”. Além do trabalho de campo, a Colónia Agrícola está envolvida em vários projetos de inovação, como um projeto piloto do Fundo Ambiental que monitora as condições climáticas e as suas influências no castanheiro. “Instalamos aparelhos de medição no solo e nas árvores para avaliar a capacidade de adaptação às mudanças climáticas”, detalha. O projeto também conta com a colaboração de universidades e laboratórios colaborativos, incluindo a Universidade de Turim (Itália). Por fim, Alberto Barata deixa uma mensagem aos produtores locais: “Não desistam da cultura. A castanha é rentável economicamente. Sabemos que é difícil, especialmente quando as árvores morrem e não se sabe o porquê. Estamos aqui para explicar e ajudar na prevenção de novos problemas”.
Alberto Barata, técnico Superior do Município do Sabugal e responsável pela Colónia Agrícola Martim Rei
RefCast fortalece a fileira da castanha com o V Simpósio Nacional
OPINIÃO DE JOSÉ GOMES LARANJO, COORDENADOR DO V SIMPÓSIO NACIONAL DA CASTANHA
A criação da RefCast – Associação Portuguesa da Castanha, surgiu como uma necessidade do setor partindo de uma iniciativa proveniente de dentro da própria fileira que começou a trabalhar inicialmente em rede a partir de 2008. Esta iniciativa permitiu criar um cluster, juntando os diferentes intervenientes na cadeia, desde a produção à comercialização, sem esquecer as entidades de I&D. É por esta razão que a RefCast é hoje uma Associação com cariz diferente, por englobar todos os setores da fileira. Esta iniciativa permitir criar um livro branco para a fileira do castanheiro e da castanha em Portugal, contribuir para uma ligação mais forte entre setores e um pensamento estratégico. O desenvolvimento técnico da produção foi desde a primeira hora uma das prioridades. Mas havia que divulgar a investigação que é feita no setor, para funcionar como um acelerador do desenvolvimento da fileira, e simultaneamente contribuir para a interação dos diferentes grupos de investigação nestas áreas, sobretudo dos existentes em Portugal. É assim que surge a organização dos simpósios nacionais do castanheiro com caráter trianual, a partir de 2011, sempre em parceria com a SCAP. Os resultados desta aposta estão bem patentes pela excelente adesão que os 4 simpósios anteriores tiveram, e pelo número crescente de comunicações que têm sido submetidas, cerca de 50 no último Simpósio. Destaco aqui a premiação dos trabalhos de doutoramento e mestrado como estratégia de promoção da investigação nestas áreas.
Simultaneamente, tem-se procurado levar esta organização para junto do setor, fora dos grandes centros, de forma a promover a adesão dos profissionais do setor e ajudar na promoção da região enquanto “Terra de Castanheiros e Castanha”.
É o caso do V Simpósio, que decorrerá no Sabugal, um concelho com forte tradição na produção de castanha, e à procura da sua afirmação no panorama nacional e internacional. É neste enquadramento que decorrerá o Simpósio, contando com um forte apoio do Município e que todos esperamos venha a ser o melhor Simpósio de entre todos os organizados até ao momento.