A agricultura no Algarve tem sido historicamente ofuscada pelo turismo, setor predominante na economia da região. No entanto, recentes movimentações no setor agropecuário procuram mudar esse cenário. Uma das iniciativas mais relevantes é a criação da Federação da Agricultura Algarvia (FEDAGRI), presidida pela Associação de Criadores de Gado do Algarve (ASCAL), liderada por Afonso Nascimento
A FEDAGRI surgiu da necessidade de estabelecer uma ponte de comunicação entre os produtores algarvios e as entidades nacionais, preenchendo uma lacuna que dificultava a representação do setor em instâncias políticas e institucionais. “Havia uma enorme falta de comunicação com as nossas entidades a nível nacional”, destacou Afonso Nascimento. “Sentiu-se esta necessidade de criar uma estrutura federativa que desse representatividade ao setor.” Fundada em agosto de 2024, durante a FATACIL, a FEDAGRI tem ganho notoriedade, destacando a relevância da agricultura para a economia algarvia. O reconhecimento crescente do setor tem sido um dos principais objetivos da federação, que já iniciou estudos para avaliar o impacto social da agricultura na região e no país.
“A agricultura foi o motor da alavancagem económica durante a pandemia”
A pandemia da Covid-19 também foi um fator determinante para a mudança de perceção sobre a importância da agricultura. Durante os períodos de confinamento, quando o turismo sofreu um colapso, a agricultura demonstrou a sua resiliência e importância ao garantir o abastecimento de alimentos. “A agricultura foi o motor da alavancagem económica durante a pandemia. Muitas pessoas perceberam que, sem ela, não haveria comida nos pratos”, ressaltou Nascimento. Apesar dos avanços, os desafios ainda persistem. A falta de reconhecimento da agricultura frente ao turismo continua a ser um obstáculo, mas a atuação da FEDAGRI promete mudar esse panorama. Com uma abordagem estruturada e uma voz mais ativa nas decisões políticas, a agricultura algarvia pode finalmente conquistar o espaço que merece no desenvolvi mento económico da região. A iniciativa da ASCAL e da FEDAGRI demonstra que a união do setor agropecuário é essencial para fortalecer a sua representatividade e garantir um futuro mais promissor para os produtores do Algarve. A Associação de Criadores de Gado do Algarve (ASCAL) tem desempenhado um papel crucial na representação e defesa dos interesses dos produtores pecuários da região. Com sede em Odiáxere, a Associação conta atualmente com cerca de 400 associados, abrangendo todo o Algarve e estendendo-se até zonas do Baixo Alentejo. O presidente da ASCAL, Afonso Nas cimento, destaca a importância da entidade no fortalecimento do setor agropecuário e na preservação das raças autóctones.
Promovendo a criação e preservação de raças como a churra-algarvia e a vaca-algarvia
A ASCAL não se restringe apenas à defesa dos produtores do Algarve, mas também está presente noutras zonas do país, promovendo a criação e preservação de raças como a churra-algarvia e a vaca-algarvia. Estas raças são um património genético valioso, especialmente devido à sua rusticidade e adaptação a condições adversas, como a escassez de água e de alimento. Atualmente, estima-se que existam cerca de quatro mil exemplares da churra-algarvia, um número que tem crescido, apesar da redução do número de explorações. O mesmo ocorre com a vaca-algarvia, que estava praticamente extinta e tem sido recuperada graças a um programa de implantação de embriões. A ASCAL também participa de projetos como o REVITAL GARVE, que procura valorizar a churra-algarvia através de iniciativas gastronómicas, como a criação das “churritas”, pra tos tradicionais elaborados com a carne desta raça. Segundo Afonso Nascimento, a qualidade da carne da churra-algarvia destaca-se no mercado, tornando-se uma opção diferenciada para consumidores exigentes.
“A vacinação antecipada evita crises sanitárias que prejudiquem os produtores”
A sanidade animal é outra preocupação central da ASCAL. A associação trabalha diretamente com os criadores para garantir condições sanitárias ade quadas, prevenindo doenças como a Língua Azul. Em reuniões com autoridades, a entidade tem exigido medidas preventivas mais eficazes, como campanhas de vacinação antecipadas, evitando crises sanitárias que prejudiquem os produtores.
Afonso Nascimento, presidente da ASCAL
Apesar das dificuldades enfrentadas nos últimos anos, a ASCAL tem conseguido recuperar a sua estabilidade financeira e reforçar a sua infraestrutura. Com uma gestão focada na sustentabilidade, na inovação e no apoio às raças autóctones, a ASCAL consolida-se como uma entidade fundamental para o desenvolvimento da pecuária no Algarve e em regiões vizinhas. A continuidade desses trabalhos promete fortalecer ainda mais o setor e garantir um futuro promissor para os criadores de gado da região.
Crise hídrica no Algarve: Um problema cíclico que exige solução definitiva
Nos dias anteriores à data da nossa entrevista, a 21 de março, a chuva tem marcado presença no Algarve, trazendo alívio aos agricultores e criadores de gado, que enfrentaram uma das piores secas das últimas décadas. Afonso Nascimento destacou os desafios vividos pelo setor e a necessidade de medidas estruturais para evitar crises futuras. A falta de água foi um problema severo no Algarve nos últimos anos, especialmente nos últimos três, causando dificuldades financeiras e logísticas para os criadores de gado. “Tínhamos que comprar comida mais cara, transportar água para os animais e reforçar a alimentação por falta de pastagens”, relatou o dirigente associativo. A situação chegou a tal ponto que os ribeiros secos por quase uma década voltaram a correr apenas agora, devido às chuvas recentes. A precipitação intensa dos últimos dias melhorou significativa mente os níveis das barragens da região, como a da Bravura e a de Silves, que há muito tempo não atingiam volumes tão elevados.
“Há uma falta de eficiência na gestão hídrica por parte das câmaras municipais, enquanto os agricultores são obrigados a reduzir o consumo”
Antes das chuvas, medidas como perfuração de furos artesianos e restrições no consumo foram discutidas para mitigar os efeitos da seca. Além disso, projetos de transvases de água entre barragens, como a ligação do Alqueva à barragem de Santa Clara, também foram cogitados. Entretanto, Afonso Nascimento teme que a solução momentânea da crise faça com que os governantes relaxem na implementação de soluções permanentes. “O problema da água foi resolvido agora, mas no próximo ano poderemos enfrentar uma situação ainda pior se não hou ver investimentos estruturais”, alertou ao mesmo tempo que critica a falta de eficiência na gestão hídrica por parte das câmaras municipais, que, na sua opinião, desperdiçam água enquanto os agricultores são obrigados a reduzir o consumo. O presidente da ASCAL reforça que a responsabilidade não deve recair apenas sobre os agricultores, mas também sobre as entidades públicas, que devem ser penalizadas pelo desperdício de água A recente melhoria na disponibilidade hídrica é um alívio temporário, mas a solução definitiva exige ação governamental concreta. “Projetos e intenções existem há décadas. Agora, é preciso colocá-los em prática”, concluiu Afonso Nascimento.
Algarve prestes a ter Matadouro Regional: Um passo decisivo para a agropecuária
A criação de um matadouro regional no Algarve está cada vez mais próxima de se tornar uma realidade. A confirmação vem do presidente da Associação de Criadores de Gado do Algarve (ASCAL), que destacou os avanços significativos no projeto. A região é a única em Portugal que não conta com uma infraestrutura desse tipo, após o encerramento do antigo matadouro de Loulé há cerca de 20 anos. O projeto do matadouro regional ganhou novo fôlego após a aprovação de uma resolução na Assembleia da República e o interesse crescente do Ministério da Agricultura. “Neste momento, temos um enquadramento favorável com verbas disponíveis através do programa Portugal 2030 e das candidaturas da CCDR Algarve. Já está garantido 60% do financiamento necessário, cerca de três milhões de euros, restando apenas encontrar os 40% complementares”, explicou Afonso Nascimento. Dois locais estão em consideração para a construção do matadouro: um terreno na zona industrial de Messines, pertencente ao Estado, e uma área de 10 hectares disponibilizada pelo Município de Loulé. “Estamos a aguardar uma reunião com a Câmara de Loulé para discutir se eles assumem os 40% restantes do financiamento ou se recorremos a uma candidatura conjunta através da AMAL”, acrescentou.
Reabilitação do mercado de Odiáxere
Outro ponto crucial abordado por Nascimento foi a reabilitação do mercado de animais vivos de Odiáxere, que funcionava até à pandemia de COVID-19 e permanece encerrado. “Existe uma estrutura financiada com fundos comunitários que está inativa. Se queremos garantir a continuidade da atividade agropecuária, é essencial apoiar a reabertura desse mercado”, defendeu. O presidente da ASCAL deixou um apelo aos criadores de gado para que se mantenham resilientes e aproveitem as oportunidades de financiamento disponíveis. Com este avanço, o Algarve pode finalmente solucionar um problema estrutural que impacta a pecuária local há décadas, garantindo melhores condições para os criadores e fortale cendo o setor agropecuário na região.