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“Agricultura sem Papas na Língua” em livro

“Agricultura sem Papas na Língua” em livro

O auditório da Ordem dos Farmacêuticos, no Porto, foi palco da cerimónia de lançamento do livro “Agricultura sem Papas na Língua” da autoria de José Martino, CEO da Espaço Visual, no início de dezembro. Esta obra, que transcende a simples compilação de crónicas, posiciona-se como um manifesto em prol do mundo rural e da coesão territorial, abordando os desafios e oportunidades do setor agroflorestal português com uma visão crítica, mas construtiva

A obra e o autor

José Martino reúne em “Agricultura sem Papas na Língua”, 89 crónicas publicadas entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023 no Semanário Vida Económica, onde reflete sobre temas cruciais como as alterações climáticas, desertificação, políticas agrícolas, jovens agricultores, floresta e sustentabilidade. Com a clareza e franqueza que lhe são características, o autor não apenas aponta problemas, mas apresenta soluções práticas, incitando à reflexão e à ação com urgência. Durante a cerimónia, à nossa reportagem, José Martino partilhou que o livro representa a concretização de um sonho. “Espero que estas crónicas transformadas em livro ajudem ao desenvolvimento do mundo rural”, afirma. Recorde-se que José Martino é um engenheiro agrónomo com uma vasta experiência de décadas no setor agroflorestal, empreendedor e consultor.

O evento contou com a presença de personalidades, incluindo o Ministro da Agricultura e Pescas, José Manuel Fernandes, o presidente da Ordem dos Engenheiros da Região Norte, Bento Aires, o presidente da Secção Regional Norte da Ordem dos Farmacêuticos, Félix Carvalho, e o diretor da Editora Vida Económica, João Luís de Sousa.

Na abertura da cerimónia, Félix Carvalho deu as boas-vindas aos participantes e sublinhou a importância de estar aberto ao conhecimento. “Nada melhor do que ouvir aqueles que “não têm papas na língua”, porque quem fala com conhecimento de causa é quem domina a sua área”, destaca o presidente da Ordem dos Farmacêuticos. Com uma visão estratégica e focada no papel da engenharia, Bento Aires, presidente da Ordem dos Engenheiros da Região Norte, destaca os desafios enfrentados pelos profissionais da área e a necessidade urgente de reposicionar a agricultura. “A agricultura é muito mais do que aquilo que está no arquétipo do nosso pensamento, das famílias ou dos jovens que querem ingressar no ensino superior”, afirma Bento Aires, desafiando a visão tradicional e muitas vezes limitada sobre o setor. Segundo o dirigente, a agricultura moderna não é ape nas uma atividade primária, mas uma ciência do território, que desempenha um papel fundamental na coesão territorial e no equilíbrio entre o material e o imaterial – uma conexão que apenas a engenharia pode proporcionar.

Nesse contexto, Bento Aires aproveitou a oportunidade para felicitar José Martino, não apenas pelo livro, mas pela sua contribuição contínua para trazer a agricultura ao centro do debate público,

com o desenvolvimento do setor”, acrescenta. Para além disso, Bento Aires também reforçou a importância do conhecimento como base para o sucesso agrícola: “A agricultura nacional precisa de conhecimento. Em todo o ciclo de produção agrícola, é essencial que haja profissionais com os conhecimentos adequados”. Segundo o mesmo, essa visão leva à necessidade de maior valorização dos engenheiros agrónomos, que são os maiores aliados dos agricultores, argumentando a necessidade de criar condições que tornem a agricultura mais atrativa para jovens talentos e que promovam a retenção de engenheiros em Portugal. “Para conseguir mos reter talento, trazer mais engenheiros agrónomos e fazer com que eles não saiam do país, precisamos de aumentar o reconhecimento e o valor dos engenheiros”. Dirigindo-se aos decisores políticos presentes, Bento Aires lançou um apelo concreto: “Todos os projetos de investimento deveriam ter a assinatura e a responsabilidade de um engenheiro (…). Explorações agrícolas, intervenções significativas ou investimentos em grande escala precisam de engenheiros capacitados ao lado dos agricultores. Só assim conseguimos garantir uma certa harmonia entre o desenvolvimento económico, social e sustentável”.

Para João Luís de Sousa, diretor da editora Vida Económica, este livro destaca-se pela capacidade de transpor o vasto conhecimento e experiência do autor, oferecendo reflexões de manifesta utilidade para todos os que atuam ou desejam ingressar neste setor.

“Achamos que o efeito pedagógico e a parte da reflexão que faz, tem aplicação prática e direta (…) e nesse ponto de vista achamos que é um livro importante”, afirma o diretor da Editora Vida Económica. De acordo com João Luís de Sousa, a obra reflete a experiência consolidada de José Martino, que acumulou conhecimento ao longo de anos desenvolvendo projetos e estudos de viabilidade no setor agrícola, algo que é transposto nos seus artigos. Além disso, o diretor da Editora destaca ainda o olhar atento de José Martino para as políticas públicas, “um tema de extrema relevância, considerando que o sucesso do setor agrícola depende, em grande parte, de políticas alinhadas para incentivar o investimento e promover a produção”.

“José Martino, pela sua experiência prática e pela quantidade de projetos realizados, apresenta um perfil único que enriquece o conteúdo da obra e desse ponto de vista é uma mais-valia para a nossa editora e temos a nossa chancela neste livro”, diz orgulhoso.

Questionado pela Voz do Campo pela falta de apetência pelo setor agrícola, para o diretor da Vida Económica, “ainda persiste a ideia de que o setor agrícola é uma atividade “pobre”, intensiva em mão de obra, desconfortável e dependente das intempéries. Contudo, a realidade atual do setor é completa mente diferente. A agricultura dos dias de hoje é de alta tecnologia, muita robotização, muita inovação e bastante investimento”. E termina: “Se as pessoas conhecerem a realidade, julgo que haverá uma mudança de perspetiva e investimento na agricultura”.

“Falar do livro “Agricultura sem Papas na Língua” é, inevitavelmente, falar de José ”Martino

Nas palavras do Ministro de Agricultura e Pescas, José Manuel Fernandes, José Martino “tem um profundo conhecimento do território” e é “desassombrado no pensamento e na emissão desse pensamento”, qualidades que o destacam como uma voz necessária no mundo atual.

O livro, composto por crónicas publicadas na Vida Económica entre 2022 e 2023, vai além de uma simples coletânea. “É um conjunto de peças de um puzzle que, depois de lidas em conjunto, dão a imagem, o pensamento e a defesa”, afirma José Manuel Fernandes, argumentando a interligação da defesa da coesão territorial e do mundo rural. “Quando falamos de coesão territorial, falamos dos fundos da política de coesão, falamos de Portugal 2030, do FEDER, do Fundo Social Europeu e do Fundo de Coesão”, diz o governante.

“A agricultura necessita dar a sua verdadeira perceção”, afirma à nossa reportagem o Ministro da Agricultura, lembrando que este setor não é apenas produção agrícola: “A agricultura é essencial para a coesão territorial, para a competitividade, para a sustentabilidade. É gastronomia, património cultural, investigação, inovação, é indústria (…). Como costumo dizer, agricultura significa segurança alimentar, comida no prato”, sublinha. Nas palavras de José Manuel Fernandes, em tempos de desafios geopoíticos crescentes, a agricultura também se torna uma questão de defesa. É vital para a autonomia estratégica da União Europeia e para a redução do défice agroalimentar nacional, que atualmente ultrapassa os 5 mil milhões de euros. Para enfrentar esse problema, é preciso “aumentar as exportações e reduzir as importações” — um objetivo ambicioso que exige políticas públicas eficazes e uma visão estratégica.

“A agricultura exige uma transversalidade em termos do seu financiamento e felizmente é o trabalho que estamos a fazer, pois temos um Primeiro-Ministro que considera a agricultura como estratégica e estruturante”, vinca José Manuel Fernandes.

Embora o livro de José Martino aborde muitos dos desafios atuais da agricultura, o Ministro destaca que já estão em curso várias iniciativas para enfrentá-los. Entre elas, a iniciativa “Água que Une” e o “Pacto para a Floresta”. Além disso, o apoio aos jovens agricultores foi ampliado, com prémios de instalação significativamente mais altos, como o novo valor de 50 mil euros, que pode chegar a 55 mil euros em zonas vulneráveis, e financiamentos que agora alcançam até 400 mil euros, quase o dobro do valor anterior. José Manuel Fernandes, considera fundamental a alteração de regulamentos europeus, por exemplo, o uso de drones na pulverização agrícola: “Algo que neste momento não é permitido e não faz sentido não o ser”. Essa mudança, no entanto, exige força política para alterar regulamentos europeus.

 

 

 

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