A Hepatite E não é apenas um problema do mundo em desenvolvimento, é atualmente um problema em países desenvolvidos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), ocorrem anualmente cerca de 20 milhões de infeções pelo vírus da Hepatite E (HEV) em todo o mundo. Considerada uma zoonose emergente com grande impacto na saúde humana, na produção pecuária e na fauna silvestre, é uma ameaça global.
O agente infecioso HEV apresenta elevada diversidade genética e um vasto leque de hospedeiros, incluindo suínos, pequenos ruminantes, cervídeos, equinos, roedores, entre outras espécies animais. A diversidade de infeções por HEV em várias espécies animais representa um risco potencial para os seres humanos, constituindo uma importante preocupação em saúde pública. Existem oito genótipos principais deste vírus de RNA simples, classificado como Paslahepevirus balayani (HEV-1 a HEV-8). Os genótipos HEV-3 e HEV-4 estão mais associados a infeções zoonóticas, ao invés dos genóti pos HEV-1 e HEV-2 que são maioritariamente veiculados por água (principalmente em países do Sudoeste asiático, África e América do Sul). Na Europa, está comprovado que o genótipo HEV-3 é o mais prevalente, circulando tanto no ciclo doméstico como no silvestre, com possibilidade de transmissão entre espécies na interface existente entre animais de pecuária e fauna silvestre, com maior expressão em áreas de extensivo como no Alentejo (imagem adaptada The Lancet).
A maioria dos animais não apresenta sinais clínicos, o que faz esta infeção por HEV um perigo oculto.
No entanto, sabe-se que os suínos, tanto o porco doméstico como o javali, são considerados os principais reservatórios animais de HEV e associados a surtos zoonóticos. A maioria destes surtos está relacionada com grupos de risco, nomeadamente idosos, mulheres grávidas, imunocomprometidos. Na Europa, a via mais comum de transmissão é o consumo de carne de suíno crua ou malcozinhada, produtos ‘pronto--a-comer’ e derivados como salsichas ou vísceras edíveis (ou seja, comestíveis), como o fígado. Também se reconhece a transmissão por contacto direto com os reservatórios e, pela contaminação ambiental também está descrita. A deteção de HEV em diversas populações de animais de pecuária e silvestres, demonstra a circulação/transmissão, como referido anteriormente. Nos últimos anos, tem havido f lutuações significativas na prevalência desta doença nos suínos europeus. Sabe-se que este vírus infeta javalis em Portugal, e que estes funcionam como sentinelas importantes, permitindo avaliar o risco de transmissão e permanência do vírus. Segundo os resultados de um estudo recente (Abrantes et al., 2023), a circulação do vírus em Portugal é clara, uma vez que mais de 26% dos javalis testados demonstram que já tiveram contacto com HEV (deteção de anticorpos), apesar da deteção molecular do vírus no animal ser numa percentagem mais baixa. Atualmente, para além da avaliação em populações animais, existe preocupação com a contaminação ambiental e a trans missão na interface fauna cinegética-gado-Homem. A coexistência espácio-temporal de fauna cinegética e animais de interesse pecuário a campo leva a interação em locais de elevado risco, como charcos, que podem estar contaminados por fezes. Estudos de águas residuais em áreas urbanas e explorações de suínos revelaram a presença de HEV-3 e HEV-4.
A dinâmica da infeção por HEV é complexa, devido à co-circulação de espécies e genótipos de HEV, múltiplos hospedeiros e contaminação ambiental.
A presença do vírus em suínos domésticos e silvestres em Portugal levanta preocupações quanto à transmissão direta ou indireta, seja por consumo de carne, fígado ou derivados, seja por contacto com animais infetados. É de notar que, surtos zoonóticos associados a suiniculturas/comercialização de produtos cárnicos podem implicar restrições comerciais e a desconfiança dos consumidores nos mercados de carne de porco/carne de caça, levando a quebras comerciais e a potenciais impactos económicos, sendo assim, importante criar um plano de monitorização de HEV neste setor (imagem Visavet adaptada.
Em resumo, devido à falta de monitorização e fer ramentas diagnósticas, a prevalência da infeção por HEV em humanos, animais e ambiente está subestimada.
Em Portugal, os dados ainda são escassos o que limita a com preensão da incidência e impacto da doença. O conhecimento de factos específicos e dos riscos evidentes permite a adoção de comportamentos saudáveis, minimizando a exposição a este agente viral e eventual infeção. Uma sensibilização focada nos riscos presentes, particularmente aos profissionais primeiramente expostos (trabalhadores no setor agropecuário e flores tal), e consumidores de produtos cárnicos (preferencialmente produtos crus e malcozinhados) é essencial.
De salientar, existem diversas medidas simples que as pessoas podem adotar de forma a mitigar o risco de aquisição deste vírus, tais como:
(i) Cozinhar devidamente a carne! - carne de porco e de caça cozinhada pelo menos a 71°C, durante 20 minutos – ado tando sempre medidas de higiene das mãos e equipamentos para a confeção da carne;
(ii) Recomenda-se fortemente o uso de luvas de proteção durante o manuseamento e evisceração de carcaças de suínos de criação em regime doméstico e javalis caçados;
(iii) Em Portugal, os caçadores iniciantes participam frequentemente no tradicional “batismo de caça”, que consiste em esfregar fígado fresco de javali na face do iniciado. Este com portamento pode representar um risco de transmissão de HEV por contacto direto com o sangue de animais infetados, pelo que deve ser evitada essa prática;
(iv) Os cortes de carne provenientes de animais potencial mente implicados na transmissão alimentar de HEV deveriam ser testados no âmbito do programa nacional de segurança alimentar, especialmente quando se destinam a produtos tradicionalmente consumidos crus, como os enchidos secos e produtos com fígado.
“Os agricultores, produtores pecuários e os caçadores têm a chave para travar a transmissão de HEV - peque nas mudanças nos hábitos podem salvar vidas”.