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Insetos na alimentação: Como subprodutos agroindustriais podem revolucionar a produção de proteína sustentável

Insetos na alimentação: Como subprodutos  agroindustriais podem revolucionar a produção de proteína sustentável

A previsão de que a população mundial ultrapasse os 9 mil milhões até 2050 coloca a segurança alimentar no centro dos debates globais. O desafio não é apenas aumentar a produção de proteína, mas fazê-lo sem agravar crises ambientais interligadas - escassez hídrica, aquecimento global e perda de biodiversidade.

As fontes convencionais de proteína animal são responsáveis por 14,5 % das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) [2] e por 29 % da pegada hídrica agrícola global [3]. Além disso, a conversão de ecossistemas naturais em pastagens responde por cerca de 80 % da desflorestação tropical [4]. Estes dados revelam o carácter insustentável dos sistemas convencionais de produção animal face às exigências futuras. Neste contexto, a criação de insetos comestíveis – entomocultura – surge como um modelo disruptivo. O grilo-doméstico (Acheta domesticus) converte aproximadamente 1,5 kg de substrato (ração para aves) em 1 kg de biomassa [5], demonstrando uma eficiência alimentar superior à dos bovinos, que, em sistemas de produção intensiva, podem requerer entre 6 a 10 kg de alimento por cada quilo de ganho de peso vivo [6]. Além disso, a produção de grilos emite consideravelmente menos GEE por componente comestível em comparação à carne bovina, cujas emissões por carcaça são drasticamente superiores [7]. O curto ciclo de vida dos grilos otimiza recursos e acelera a produção, garantindo maior dinamismo em relação a sistemas convencionais. Paralelamente, a estratégia de incorporar subprodutos agroindustriais, como resíduos hortofrutícolas e de pescado, na alimentação dos grilos pode viabilizar a produção de proteínas de alto valor biológico, alinhada com os princípios da economia circular. O consumo de insetos recebeu luz verde na UE para quatro espécies - incluindo o grilo-doméstico [8]- sinalizando um passo decisivo para modelos produtivos alinhados aos limites planetários.

Dietas Alternativas: Inovação e Análise de Desempenho

Estudos recentes investigaram em dietas alternativas para a alimentação de grilos (A. domesticus) substituindo parcialmente a ração comercial por subprodutos agroindustriais e o efeito na qualidade de pó de inseto enquanto ingrediente alimentar [9, 10]. As principais questões foram: (i) reduzir os custos da criação de insetos através da valorização dos subprodutos no contexto da economia circular e (ii) caracterizar o perfil nutricional do pó de inseto obtido. Testaram-se duas formulações: Dieta I, constituída por 50 % de subprodutos hortofrutícolas (folhas de brássicas, tomate e talos de cenoura) e 50 % de ração comercial (ração para pintos); e Dieta II, composta por 33 % de subprodutos hortofrutícolas, 33 % de subprodutos de peixe e 33 % de ração comercial. Os ensaios, em parceria com a empresa portuguesa The Cricket Farming Co., demonstraram viabilidade, já que os grilos completaram o ciclo de vida, indi cando potencial para aplicação prática das referidas dietas.

Os pós de grilo FI e FII (obtidos a partir das Dietas I e II, respetivamente) apresentaram perfis nutricionais distintos e relevantes para a alimentação humana, destacando-se:

Proteína: ambas as formulações apresentaram teor elevado (≈ 60 %), com perfil completo de aminoácidos essenciais, atendendo às necessidades nutricionais humanas. Lípidos: FI e FII tiveram teores de ≈ 14 % e ≈ 13 %, respetiva mente; FI revelou maior proporção de ácidos gordos satura dos, enquanto FII destacou-se pelo acréscimo de ácidos gordos monoinsaturados. Minerais: a composição mineral foi diversificada, com FII exibindo concentrações superiores de Na, K, Ca, P, Mg e S. Compostos antioxidantes: ambas as formulações apresentaram elevada capacidade antioxidante, sendo FI aproximada mente duas vezes mais potente do que FII.

Acresce que os pós de inseto apresentaram resultados microbiológicos aceitáveis, com contagens dentro dos parâmetros de segurança definidos pela legislação europeia [8]. Contudo, no pó FII — obtido a partir da dieta que incluiu subprodutos de peixe — foram registados níveis de mercúrio que se encontram acima do limite permitido, sinalizando o potencial risco de bioacumulação.

Conclusão: Um Futuro (Mais) Sustentável

Os resultados mencionados comprovam a viabilidade de die tas alternativas com incorporação de subprodutos agroindustriais na criação de grilos fomentando práticas de economia circular. Para além disso, esta abordagem permite reduzir os custos de produção, contribuindo para sistemas alimentares mais sustentáveis e eficientes. Outro resultado significativo foi a forma como a dieta permite modular o perfil nutricional do pó de grilo. Ao ajustar a alimentação, é possível “personalizar” o produto, enriquecendo-o com nutrientes específicos — por exemplo, omega-3 (benéfico para a saúde cardiovascular), fibras ou proteínas de elevado valor biológico. Esta versatilidade abre caminho ao desenvolvimento de suplementos e ingredientes funcionais para a indústria alimentar.

Para explorar todo este potencial, será necessário promover investigação adicional, testar novos subprodutos integrando diferentes áreas científicas, como nutrição, tecnologia alimentar e biologia.

Os grilos provaram ser muito mais do que uma simples curiosidade exótica. Com dietas formuladas de forma inteligente, os insetos podem transformar subprodutos de baixo valor ou descartados no ambiente, em proteína de elevado valor biológico, reduzindo a pressão sobre recursos naturais. O potencial é claro, mas resta superar desafios técnicos e regulamentares para que esta solução ganhe escala global, para que no futuro, a sustentabilidade e a inovação possam andar de mãos dadas rumo a sistemas alimentares resilientes.

 

 

 

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