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Antracnose da amendoeira: Impacto, agentes patogénicos e estratégias de gestão

Antracnose da amendoeira: Impacto, agentes patogénicos e estratégias de gestão

N os últimos 10 anos, a cultura da amêndoa ganhou destaque em regiões de Portugal que tradicionalmente não produziam este fruto seco. O Alentejo é um exemplo desta alteração no panorama agrícola, onde se verifica a instalação de amendoais intensivos, cujo crescimento foi impulsionado pela disponibilidade hídrica proporcionada pelo perímetro de rega do Alqueva.

No entanto, esta intensificação tem conduzido a novos desafios fitossanitários, entre os quais se destaca a antracnose da amendoeira, causada por fungos do género Colletotrichum, representando um impacto significativo na produtividade desta cultura.

Caracterização da doença

A antracnose da amendoeira manifesta-se principalmente nos frutos, onde provoca lesões circulares em depressão e de cor laranja, que normalmente apresentam micélio branco e gomose. Com o avanço da infeção, os frutos afeta dos acabam por mumificar, permanecendo na árvore durante o outono-inverno, tornando-se fontes de inóculo para o ciclo fenológico seguinte. A doença é favorecida por temperaturas entre 20 e 25°C e elevada humidade, esta condição ocorre frequentemente durante a primavera no Alentejo.

Avaliação regional e agentes patogénico

Entre 2022 e 2024, foram analisados 15 amendoais distribuí dos pelos concelhos de Aljustrel, Alvito, Beja, Évora, Ferreira do Alentejo e Portel abrangendo sistemas de produção intensivos e superintensivos (figura 3). A avaliação focou-se na incidência da doença, assim como a identificação da espécie do agente patogénio. As cultivares mais frequentes nas explorações foram ‘Lauranne’, ‘Soleta’, ‘Belona’ e ‘Guara’. PUB 9, 10 e 11 Setembro 2025 Em relação à suscetibilidade das cultivares à antracnose é reportado que ‘Penta’ e ‘Vairo’ são as mais vulneráveis (Lópe z-Moral et al., 2019) (tabela 1). No entanto, considerando as condições climáticas do Alentejo, que se caracteriza por verões quentes e secos com temperaturas que podem chegar aos 40°C nos meses mais quentes e invernos húmidos e frios com temperaturas que podem chegar aos 0°C, as cultivares ‘Soleta’ e ‘Guara’ foram as mais suscetíveis à doença. Em 2022, a incidência em algumas parcelas em sistema superintensivo atingiu o valor de 100%, o que levou alguns produtores a optar por reconverter o amendoal para sistema de produção intensivo.

Foram identificadas três espécies de Colletotrichum associa dos à antracnose da amendoeira no Alentejo, nomeadamente Colletotrichum godetiae (85%), C. acutatum (13,8%) e C. fioriniae (1,2%). Neste contexto, constata-se que a doença é causada por uma elevada diversidade de agentes patogénicos. Contudo, C. godetiae é a espécie predominante. Em trabalhos anteriores (López-Moral et al., 2017; 2019) amên doas destacadas foram colocadas em câmara húmida, e os ensaios demonstraram que C. acutatum é mais virulento do que C. godetiae, evidenciando maior capacidade de produzir conídios e elevada taxa de crescimento a temperaturas altas (35°C). No entanto, a capacidade de C. godetiae em desenvolver e produzir conídios a baixas temperaturas (10-25°C) permite causar infeção durante o final do inverno até ao início da primavera, coincidindo com o vingamento e o cresci mento inicial do fruto (Felipe, 1977). Os salpicos da chuva dispersam os conídios e as infeções podem ocorrer nos teci dos dos frutos e folhas, sendo os frutos mais novos os tecidos mais vulneráveis à infeção (López-Moral et al., 2020).

Papel do ecossistema agrícola na disseminação da doença

As espécies de Colletotrichum spp. identificadas no amendoal são polífagas, tendo a capacidade de infetar outras culturas agrícolas como a oliveira, macieira, laranjeira, marmeleiro entre outras (Talhinhas & Baroncelli, 2023), podendo contribuir para a manutenção e dispersão de inóculo da doença. Assim como, as infestantes normalmente presentes nas entre linhas nos amendoais do Alentejo, que podem ser hospedei ros alternativos de C. godetiae. As plantas Lathyrus tingitanus, Polygonum aviculare, Taraxacum officinale e Trifolium pratense são suscetíveis à antracnose, desenvolvendo manchas cloróticas e massas de esporos quando infetadas (Ramos et al., 2025). Porém, espécies como Conyza canadensis, Medicago orbicularis, Scorpiurus sulcatus, Polygonum aviculare e Trifolium vesiculosum não expressam sintomas, mas o fungo consegue sobreviver como epífita sobre a planta, ou seja, este conjunto de plantas pode contribuir para a disseminação do inóculo do patogénio (Ramos et al., 2025).

Estratégias de proteção

Até fevereiro de 2024, os produtores enfrentavam a ausência de produtos fitofarmacêuticos homologados para o controlo da antracnose da amendoeira, o que dificultava a gestão eficaz da doença. O crescente reconhecimento do impacto desta doença resultou na autorização de utilizações menores de três produtos comerciais, com as seguintes substâncias ativas: piraclostrobina, azoxistrobina + difenoconazol e extrato aquoso de sementes germinadas de Lupinus albus doce. Os fungicidas devem ser aplicados entre a floração e até as amêndoas atingirem 90% do tamanho final, consoante o produto.

A gestão da antracnose deve ser integrada na proteção contra outras doenças relevantes no amendoal, como a moniliose, a mancha ocre, cancro, crivado e a lepra (Santos et al., 2021). Várias destas doenças afetam a amendoeira nos mesmos estados feno lógicos do que a antracnose, o que permite uma abordagem integrada na aplicação de tratamentos fitossanitários, ao usar produtos homologados para múltiplas doenças,

Complementarmente, é fundamental adotar práticas profiláticas que têm um amplo impacto na sanidade do amendoal, que inclui a remoção de material vegetal infetado (amêndoas mumificadas e ramos necrosados), podas que promovam o arejamento da copa, fertilização equilibrada, escolha de cultivares menos suscetíveis e remoção de infestantes hospedeiras, como Coniza spp. que está bastante disseminada nos pomares do Alentejo.

Considerações finais

A antracnose da amendoeira representa um desafio para o atual contexto de produção de amêndoa no Alentejo. A complexidade epidemiológica da doença, caracterizada pela diversidade de agentes patogénicos e interação com a paisagem agrícola, requer soluções sustentadas pela investigação e ajustadas ao contexto edafoclimático real. Combinar estratégias de proteção fitossanitária de acordo com a ecologia do patogénio e a flora envolvente é fundamental para assegurar uma produção sustentável de amêndoa.

 

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