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Azeite português precisa de nova estratégia de promoção

Azeite português precisa de nova estratégia de promoção

O azeite português precisa de uma nova abordagem estratégica. Foi essa a mensagem trazida por José Duarte, presidente da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos, à nossa reportagem, à margem da sua participação no debate “Identidade do Azeite Português: Marca & Origem” integrado no Congresso Nacional do Azeite.

“O painel foi muito interessante porque abordámos o setor como um desígnio nacional. Falámos da importância de ter mos uma marca própria, uma marca chapéu para aquilo que é a promoção do nosso azeite. E não só a nível internacional, mas também a nível nacional”, afirma o presidente da Cooperativa de Moura e Barrancos. Para José Duarte, esta promoção deve assentar numa comunicação clara com o consumidor, que valorize as qualidades únicas do azeite português, ainda subaproveitadas. “Há um longo percurso a fazer por todo o setor naquilo que é a sensibilização e a comunicação ao consumidor sobre um produto de excelência como é o azeite. Nós não estamos a capitalizar aquilo que são as suas características para a saúde”, regista o presidente da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos. Essa comunicação deve começar desde cedo. Um dos pontos consensuais do painel foi a importância da sensibilização nas escolas. “Acho que foi consensual que temos que começar essa comunicação e essa sensibilização logo nas escolas com as crianças”, diz. A Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos já dá o exemplo, com iniciativas abertas à comunidade escolar durante a campanha da azeitona.

“Durante a campanha, temos uma semana aberta à comunidade local e às escolas locais. Todos os miúdos, desde o jardim de infância até ao secundário, passam pela Cooperativa. Assistem ao vivo a todo o processo: desde a receção da azeitona até à extração e embalamento do azeite”, sublinha José Duarte. E argumenta: “Acabamos por proporcionar aos nossos alunos uma visão e uma dinâmica diferente daquilo que, por exemplo, é apresentado nos livros. E isso é muito importante”

Outro ponto abordado foi a sustentabilidade ambiental, uma área onde Portugal já é reconhecido a nível internacional. “Hoje em dia, e no caso da olivicultura em particular, há uma grande preocupação com a sustentabilidade ambiental. Portugal é uma referência na olivicultura mundial pelas práticas sustentáveis que aloca na produção de azeite”, afirma o presidente da Cooperativa. Mas a grande prioridade, insiste José Duarte, continua a ser a promoção global do azeite português, sublinhando a excelência da produção nacional. “Portugal é o país do mundo que produz a maior percentagem de azeites de qualidade. 98% dos nossos azeites são virgem ou virgem extra. E é essa a mensagem que temos de comunicar para o exterior (…). Temos de ter uma marca Portugal e englobar dentro dessa marca tudo o que são os nossos azeites – desde as DOP’s até ao azeite proveniente de olival mais moderno”, defende. O dirigente alerta também para os riscos geopolíticos, nomeadamente a ameaça de tarifas sobre o azeite europeu por parte dos Estados Unidos: “Fala-se nas tarifas aduaneiras, mas a verdade é que ainda não há nada de concreto. No entanto, temos que nos preparar caso os EUA imponham tarifas para o azeite comunitário”. Nesse cenário, o Brasil e a América Latina surgem como mercados estratégicos alternativos.

José Duarte, presidente da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos

“Portugal é dominante no mercado brasileiro. E com o acordo do Mercosul, vamos ter tarifas zero para o azeite. Temos que procurar alternativas e proteger as marcas portuguesas que já estão no Brasil e que são dominantes”, considera José Duarte, e o mesmo defende: “É importante termos uma interprofissional do azeite que promova o azeite português como um todo e que proteja também quem já está nesses mercados”.

No plano local, a Cooperativa enfrenta desafios estruturais profundos. Um deles é a falta de infraestruturas de regadio, mesmo estando próxima do Alqueva. “Apesar de estarmos perto do Grande Lago do Alqueva, ainda não temos construídas as infraestruturas de regadio da segunda fase – o Bloco de Moura e o Bloco de Póvoa–Amareleja. Já três ministros da Agricultura disseram que iríamos ter a construção dos blocos. A realidade é que estamos em 2025 e ainda não avançou a obra (…). Mas pelas informações que temos, o Bloco de Moura vai avançar este ano, e o da Póvoa Amareleja em 2026 ou 2027”, diz esperançado.

Outra limitação é a Rede Natura 2000, que impede o uso de regadio em várias áreas do concelho. A somar-se a isso, os produtores enfrentam os efeitos das alterações climáticas e da subida dos custos de produção.

“Tivemos os últimos dois anos muito secos, e isso afetou bastante a produção de azeite no olival tradicional. Neste momento, estamos com o preço do azeite muito idêntico ao de há 3 ou 4 anos. Mas os custos de produção subiram bastante. Os nossos agricultores estão no limiar da rentabilidade”, lamenta José Duarte.

Apesar de tudo, a resiliência do olival tradicional continua a impressionar

“Há quem diga que são mais resilientes. É verdade. Oliveiras de sequeiro suportarem três, quatro meses com temperaturas acima dos 30, 35 graus e ainda conseguirem dar alguma azei tona é algo que tenho dúvidas que o olival intensivo consiga. Não é por acaso que na nossa zona temos olival desde o tempo dos romanos. As condições edafoclimáticas na região de Moura são propícias e o olival tradicional faz parte da nossa cultura e da nossa identidade”, termina.

 

Casa Relvas: Do vinho ao azeite, sempre com o Alentejo como ADN

A Casa Relvas, conhecida pela sua forte presença no setor vitivinícola, tem vindo a reforçar o seu posicionamento na fileira do azeite. A aposta na olivicultura surge como uma extensão natural da sua ligação ao território e aos produtos típicos do Alentejo.

“O ADN da Casa Relvas, tendo o core business no vinho de há 20 anos para cá, não deixa de ser o Alentejo, os produtos típicos e mais reconhecidos da região”, afirma Henrique Herculano, em representação da empresa. Com sede em São Miguel de Machede, no concelho do Redondo, a Casa Relvas assumiu a diversificação como estratégia. “O olival surgiu como um investimento natural e o investimento no lagar vem na sequência da plantação de olivais”, refere. A empresa já conta com uma produção significativa. “A evolução natural dos negócios levou a que o lagar tenha já uma quantidade processada bastante razoável e o azeite embalado comece também a ganhar o seu peso e a acompanhar o vinho já numa parte das expedições”, carateriza Henrique Herculano.

Perante este contexto, a estratégia da empresa assenta na qualidade e na eficiência.

“Basicamente, o que procuramos é trabalhar com eficiência, trabalhar com qualidade, e a partir daí o caminho faz-se por si próprio. Se o produto tiver qualidade e se nós trabalharmos bem com eficiência, as oportunidades surgem e a estratégia vai-se desenhando sozinha”, clarifica. Outro elemento distintivo é a abertura ao mercado e às tendências dos consumidores. “Temos uma equipa comercial muitíssimo ativa”, revela Henrique Herculano.

O olival da Casa Relvas assenta maioritariamente em sebe.

“Maioritariamente, olival em sebe, o chamado superintensivo. É um investimento recente, os olivais da Casa Relvas têm 5, 6 anos. Empresarialmente, e sobretudo a uma escala minimamente razoável, não faria qualquer sentido investir em sistemas de condução em que uma coisa tão essencial como seja a colheita não esteja assegurada”, afirma.

Atualmente, a Casa Relvas explora 300 hectares de olival próprio, mas está em franco crescimento.

“Estamos em processo de plantação de mais de 250. Em dois ou três anos estaremos a laborar a azeitona de 550 hectares de olivais próprios”, afirma ainda. Já a proximidade com Espanha é inevitável, trazendo tanto desafios como oportunidades. “Como em tudo na vida, há vantagens e há inconvenientes. As vantagens são: podemos ter acesso a soluções tecnológicas, a fornecedores, a consultadoria, a benchmarking, a inspiração e até relações diretas com o setor em Espanha”, sublinha. Henrique Herculano destaca ainda a modernidade do setor português: “Os olivais e lagares do Alentejo, os mais recentes, são consensualmente considerados os mais eficientes e modernos do mundo”. Contudo, a influência do país vizinho é determinante na formação de preços. “A bolsa de Jaén, que é uma região que, se fosse um país, era o maior produtor do mundo (…) é a bolsa que serve de referência para a esmagadora maioria das transações comerciais. (…) As transações comerciais de azeite embalado também têm uma dependência desta bolsa”, vinca.

 

“Estarão os consumidores disponíveis para compensar os produtores pelos custos adicionais de compliance?”

Pedro Cruz, ESG Coordinator Partner da KPMG, participou num dos painéis mais desafiantes do Congresso Nacional do Azeite, centrado no impacto das práticas de sustentabilidade ambiental, social e de governance (ESG) no setor.

Para o responsável da KPMG, a essência do ESG passa por garantir que as empresas operam de forma responsável: “Esta mos a falar, essencialmente, como é que questões ambientais, questões sociais e questões de governance têm que ser endereçadas pelas empresas, no fundo para garantir que a forma como operam está alinhada com os princípios”. Pedro Cruz sublinha que estes princípios têm custos associa dos. “Isso obriga a descarbonizar os negócios, a tentar usar os recursos de forma mais eficiente, e isso traz custos”. E a grande questão que se impõe, diz, é se “os consumidores estariam ou não disponíveis para pagar o prémio, de modo a compensar os produtores pelos custos adicionais de compliance”.

O painel de que participou não fugiu à polémica: “Uma das pessoas que estava na audiência pergun tou-nos precisamente isso, se nós achávamos que os consumidores estavam disponíveis para pagar mais, para terem um produto verde, sustentável”.

Com base num estudo realizado pela KPMG, Pedro Cruz trouxe à conversa o fator geracional: “Os muito jovens estavam disponíveis a pagar um prémio às vezes de 50%, e eu brincava porque provavelmente não são eles que pagam as contas, são os pais. Os mais velhos também aceitavam pagar um prémio, embora não tão generoso, e depois as pessoas que no fundo estão mais pressionadas, na faixa dos 30 aos 50 anos, aceitavam pagar um prémio, mas pequeno”.

Há, no entanto, uma linha comum: “As pessoas estão conscientes e querem fazer uma escolha que privilegie produtos que sabem que foram produzidos com práticas sustentáveis e que cuidam da mão de obra, mas depois no final do dia tem que haver um pragmatismo”.

Pedro Cruz lembra que a União Europeia já estabeleceu um enquadramento obrigatório para o reporte de sustentabilidade empresarial: “As empresas têm que preparar, para já as grandes, e depois temos uma fase em que vai apanhar empresas mais pequenas, um framework de reporte que, no fundo, a primeira base é perceber quais é que são os temas que são relevantes para cada empresa”. A abordagem, no entanto, não é uniforme. “Não há uma lógica de exigir as mesmas métricas e o mesmo reporte a todas as empresas, porque não fazia sentido. Cada setor tem, obviamente, temas específicos”. Mas há também uma característica estratégica essencial: “É um setor exportador, portanto, hoje em dia, uma grande parte da produção é exportada”.

Do trabalho desenvolvido com empresas do setor, o responsável da KPMG partilha uma tendência clara: “Temos as grandes empresas, de facto, já há algum tempo, e de forma voluntária, a preocuparem-se com estes temas no ambiente, no reporte. As mais pequenas, com menos capacidade financeira para fazer os investimentos necessários, cor rem um bocadinho atrás das maiores empresas, que acabam por servir um pouco de catalisadoras para o setor”

 

Caja Rural Del Sur e o compromisso com o financiamento agrícola

Na oitava edição do Congresso Nacional do Azeite, Eládio Petro Gonçalves, COO (Chief Operations Officer) da Caja Rural Del Sur em Portugal, sublinhou o papel ativo da banca no apoio ao financiamento de projetos agrícolas, destacando em particular a valorização de práticas alinhadas com os critérios ESG. “As perguntas que me foram dirigidas, ou que a plateia acabou por questionar, são como é que a banca está a premiar, de alguma maneira, quem cumpre os relatórios ESG”, começou por referir à nossa reportagem. E adiantou: “Aquilo que nós estamos a fazer, pelo menos internamente, é bonificar taxas ou comissões a quem cumpre as métricas ESG, e toma a iniciativa de ter já este tipo de preocupações, mesmo numa altura em que não existe obrigatoriedade de o fazer”.

A preocupação manifesta-se não só em práticas ambientais, mas também em aspetos de governance e impacto social. “Já estão a apresentar de forma proativa os seus relatórios de certificação, e nós de alguma maneira decidimos internamente premiar as empresas que têm essa preocupação com a sociedade”.

“Nós gostamos de estar no terreno, não gostamos de estar sentados na secretária à espera de que o agricultor venha ter connosco. Nós vamos ao terreno falar com o agricultor, visitar os campos. Inclusivamente os nossos analistas de risco têm conhecimento do setor agro, e mesmo os analistas de risco vão ao terreno visitar as explorações”, refere Eládio Petro Gonçalves.

Sobre a realidade portuguesa, o COO da Caja Rural Del Sur em Portugal sublinha a importância dos olivicultores no arranque da operação da entidade no país: “Os olivicultores em Portugal têm uma quota muito interessante, até porque o nosso projeto em Portugal começou precisamente com projetos agrícolas, no setor do olival”.

Hoje, a atuação da Caja Rural Del Sur em Portugal já conta com uma carteira de financiamento relevante: “Temos perto de 65 milhões de financiamento atribuídos a projetos e a agricultores e empresas agrícolas”. Quanto aos tipos de projetos financiados, Eládio Pedro Gonçalves destaca o “olival intensivo, superintensivo, projetos de olival tradicional (…) também já temos alguns em carteira, temos um bocadinho de tudo”. O objetivo a longo prazo é claro para Eládio Petro Gonçalves: “O céu é o limite. A nossa intenção é poder replicar o modelo que temos em Espanha na totalidade em Portugal”.

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