Últimas
×

Lubrificantes agrícolas e contaminação alimentar: O risco invisível que começa no campo

Lubrificantes agrícolas e contaminação alimentar: O risco  invisível que começa no campo

A empresa Paulo C. Barbosa, Lda., sediada em Valongo (Porto), iniciou atividade em 1954 no fornecimento de soluções de lubrificação industrial de elevada performance.

À nossa reportagem Joaquim Sá, diretor técnico da Paulo C. Barbosa, explica que a empresa tem estado a acompanhar uma questão emergente no setor do azeite: a presença de contaminantes como, Hidrocarbonetos Saturados de Óleo Mineral - MOSH e Hidrocarbonetos Aromáticos de Óleo Mineral – MOAH – no azeite, uma preocupação que, segundo o próprio, está “muito recentemente” na ordem do dia. “É um tema importante e que, de certa forma, faz parte também da sustentabilidade”, partilha Joaquim Sá à nossa reportagem. Segundo explicou, o MOSH e MOAH têm origem em lubrificantes industriais usados em maquinaria, e têm sido detetados desde o início da cadeia produtiva. “Toda a gente está focada no processo produtivo da extração do azeite no lagar e nós tentamos mostrar que as contaminações são desde a origem, na apanha da azeitona (...). Os equipamentos agrícolas, são os principais contaminantes da azeitona logo no olival, que depois se transmite e deteta no azeite após embalado”, considera.

Joaquim Sá aponta ainda que esta situação já teve consequências concretas: “O ano passado detetaram-se recusas e rejeições de toneladas de azeitona (...), por elevadíssimos níveis de contaminação por hidrocarbonetos minerais, compostos por duas frações químicas: hidrocarbonetos saturados e aromáticos. Um deles foi considerado pela Comunidade Europeia altamente cancerígeno”.

Contaminação afeta toda a indústria agroalimentar

A preocupação, referiu, não é exclusiva do setor do azeite. “Isto acaba por ser transversal à indústria agroalimentar. A indústria do tomate, o vinho, ou seja, toda a indústria dos ali mentos ou dos frutos chamados de polpa mole são suscetíveis de serem contaminados logo na origem, na produção”, afirma Joaquim Sá. “Não é na adega nem no lagar que começa o problema. É no campo. O agricultor, que se diz e é ambientalmente responsável, muitas vezes não considera a questão do equipamento industrial como relevante nesta problemática. E devia”, alerta. Mesmo os lubrificantes ditos food grade não escapam à análise. “Constatou-se agora como preocupantes, os hidro carbonetos minerais presentes nos lubrificantes, mesmo os minerais considerados food grade. São seguros, entre aspas. A transição agora tem de ser para lubrificantes 100% sintéticos — MOSH/MOAH Free, como se diz internacionalmente — ou seja, sem saturados nem aromáticos”, realça.

“Essa é a nossa preocupação enquanto empresa e fornecedora deste tipo de pro dutos. Tentamos ajudar os nossos clientes a considerar boas práticas e fazer uma transição célere, porque quanto mais adiarmos, mais contaminamos. E isso tem implicações alimenta res e ambientais”, argumenta Joaquim Sá.

Chamando a atenção para os riscos, deu o exemplo do impacto ambiental direto: “Um litro de óleo pode contaminar um milhão de litros de água potável. Qualquer agricultor, se tiver um tubo hidráulico que derrame para o solo 3, 4, 10 ou 20 litros, pode ser considerado um potencial contaminante do ambiente. Há dois tipos de contaminação a considerar: a do produto e a do solo”

“Já existem algumas diretrizes, mas a Comunidade Europeia está a preparar nova legislação para que o mercado se prepare para esta questão do MOSH e MOAH, os tais saturados e aromáticos. São palavrões que as pessoas não estão muito familiariza das, mas que têm impacto real”, adverte.

Sobre o contexto nacional, apontou diferenças entre regiões. “Fomos primeiro abordados pela indústria no Norte, em Trás--os-Montes, onde detetámos algumas anomalias. No Alentejo, como há uma produção mais mecanizada, entendemos que o risco de contaminação poderá ser superior. Quanto mais mecanizado, maior o risco”, sublinha. Por fim, Joaquim Sá refere que ainda há falta de informação no setor: “A abordagem que fazemos é técnica, mas percebemos que ainda há alguma ignorância, entre aspas, no bom sentido. Dá-me a ideia que as pessoas precisam de ser mais bem informadas e recorrer mais à legislação europeia, que está acessível. Vêm aí tempos mais exigentes - e nós também somos consumidores, antes de sermos fornecedores”.

 

Partilhar: