A carne de frango continua a ser uma das fontes de proteína de origem animal mais populares e acessíveis em todos os mercados e, segundo previsões da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o seu consumo deverá crescer a uma taxa anual de 2,3% até 2030.
Tendo em conta esse ritmo de crescimento, projeta-se que, até esse ano, o mercado mundial de carne de aves atinja 166 milhões de toneladas, tornando-se, assim, a proteína de origem animal mais consumida em todo o mundo. Fruto deste crescimento e desenvolvimento da indústria avícola, os sistemas de produção de frangos terão de se ajustar cada vez mais às exigências dos consumidores quanto ao tamanho e peso das aves, aos tipos de produtos finais desejados, às normas de segurança alimentar, às preocupações com o bem-estar animal, ao impacto ambiental, ao uso de antibióticos, entre outros. Contudo, as mudanças necessárias nos sistemas de produção por forma a satisfazer essas exigências representam alguns desafios, nomeadamente ao nível da saúde dos frangos e devido ao aparecimento de doenças infeciosas emergentes e reemergentes.
Embora se verifiquem semelhanças genéticas nas linhagens de frangos usadas globalmente, existem grandes variações entre países e, dentro de cada país, entre regiões ou empresas, ao nível do tipo de alojamento e grau de controlo ambiental, condições meteorológicas, densidade populacional das aves, doenças endémicas da região, peso corporal final, intervalo entre lotes, reutilização da cama, qualidade da água, composição e aditivos na dieta, planos de gestão de saúde e nível de biossegurança, entre outros.
Nessa medida, a incidência de doenças, assim como a prevalência e as taxas de mortalidade, variam entre regiões. Assim, a otimização da saúde dos frangos é fundamental para esta indústria devido ao elevado custo das principais doenças, impactos no bem-estar animal, defeitos e condenações de carcaças e problemas de segurança alimentar nas unidades de processamento. Para tal, é importante estar familiarizado com as principais doenças infeciosas associadas à produção de frangos em Portugal, designadamente a Doença Infeciosa da Bursa, a Doença de Newcastle, a Bronquite Infeciosa Viral, a Coccidiose e a Colibacilose. Para além disso, é fundamental entender as estratégias atuais e futuras para melhorar e otimizar a resistência a essas mesmas doenças, ao mesmo tempo que se reduz a dependência de antibióticos. As principais estratégias de controlo são a biossegurança, vacinação, vigilância, diagnóstico, gestão ambiental, intervenções nutricionais e seleção genética.
Estratégias de controlo das principais doenças infeciosas em frangos
A prevenção e o controlo das doenças envolvem uma série de processos interligados que abrangem a infraestrutura dos pavilhões, a manutenção dos equipamentos, a gestão, bem como fatores nutricionais, imunológicos e de seleção genética. Em primeiro lugar, é essencial minimizar o risco de infeção através de medidas de biossegurança, tratamento adequado e monitorização da qualidade da água e da alimentação, além do maneio ambiental nas instalações.
Aumentar a resistência dos animais é igualmente importante, podendo ser feito através da imunização, imunomodulação ou seleção genética. Além disso, é crucial prevenir a propagação das doenças, reforçando as medidas de biossegurança, vigilância e implementando a prática de quarentena sempre que possível.
O diagnóstico é crucial para determinar a causa específica do problema de saúde a ser tratado. Existem várias técnicas e fer ramentas de diagnóstico laboratoriais e de campo disponíveis para cada doença que afeta os frangos, como veremos mais à frente. No entanto, é raro que uma doença seja causada por apenas um único agente patogénico, estando envolvidos, frequentemente, múltiplos fatores e patógenos estão envolvidos.
Por isso, é essencial adotar uma abordagem abrangente, considerando todo o sistema de produção. Isto requer informação precisa e completa dos dados de produção ao longo do tempo, já que muitas doenças infeciosas são subclínicas e podem ser detetadas nos registos de produção, nos serviços de inspeção da carne nos matadouros ou em auditorias de bem-estar.
Assim, a análise de dados é cada vez mais essencial para otimizar a produção de frangos, uma vez que permite resumir múltiplos parâmetros ambientais e de desempenho e detetar tendências, correlações e causalidades, ajudando a entender os fatores epidemiológicos, prever o início das doenças infeciosas e, dessa forma, melhorar o bem-estar e a saúde dos frangos de carne.
Uma importante fonte de informação sobre a saúde dos frangos de carne são os dados obtidos nos matadouros, já que as contagens finais dos frangos abatidos e frangos mortos à chegada, bem como os relatórios de doença e sinais clínicos observados nas carcaças constituem indicadores do estado de saúde dos animais. Esta informação pode ser ligada à identificação de patógenos específicos e títulos de anticorpos a partir de amostras de sangue frequentemente recolhidas antes do processamento.
Para a produção sustentável de frangos ser viável é também fundamental promover respostas imunitárias melhoradas através da vacinação. A vacinação eficaz reduzirá significativa mente o risco de as aves desenvolverem doenças clínicas e, em consequência, as perdas económicas associadas quando expostas à multitude de patógenos presentes no seu ambiente. Embora a eficácia da vacina dependa muito das características da própria vacina, fatores como a manutenção da cadeia de frio apropriada durante o armazenamento, o transporte e a aplicação correta das vacinas são igualmente aspetos a ter em conta. Em frangos, as formas mais comuns de aplicação de vacina são por nebulização com gota fina (vacinas respiratórias) ou grossa (vacina coccidiose), subcutânea e in-ovo.
O papel da Biossegurança
Na prevenção e controlo das doenças infeciosas, a biossegurança é a primeira linha de defesa e, a longo prazo, a mais económica. Por biossegurança entende-se ação ou plano de saúde destinado a proteger uma população contra agentes infeciosos e transmissíveis. Apesar de os princípios da biossegurança existirem há centenas de anos, ainda hoje enfrentamos dificuldades para que as pessoas executem ações simples que sabemos serem eficazes na prevenção de doenças contagiosas em pavilhões avícolas.
De um modo genérico, há duas categorias de biossegurança, a externa e a interna. Ambas visam reduzir as fontes de con taminação e separar essas fontes dos bandos saudáveis. A intensificação da produção avícola, e a consequente maior concentração de pavilhões em determinadas regiões geraram um ambiente propício para a disseminação e propagação de doenças infeciosas, o que torna essencial adotar uma abor dagem regional de biossegurança baseada na comunicação dentro da indústria avícola e na organização do movimento de pessoas, aves, materiais e equipamentos dentro de uma dada área. O principal desafio da implementação das medi das de biossegurança é conseguir obter alta conformidade com essas medidas por todos os funcionários e visitantes dos pavilhões.
Para prevenir a disseminação de doenças em explorações avícolas, a descontaminação dos pavilhões e a gestão de veículos e equipamentos são fundamentais. Primeiramente, é fundamental realizar um vazio sanitário, isto é, manter o pavilhão sem animais durante um período específico. Neste intervalo, todas as aves são removidas, por forma a ser possível implementar de práticas de limpeza e desinfeção. Após esse processo, o pavilhão é repovoado com um novo lote de aves, geralmente uns dias ou semanas depois. Este método é conhecido como “all-in/all-out”.
A descontaminação dos pavilhões envolve três etapas principais. A primeira é a remoção a seco do material orgânico visível, como cama e ração. A segunda etapa consiste na apli cação de detergente, essencial para eliminar resíduos difíceis de remover manualmente, seguida de desinfeção e secagem. Durante essa etapa, é crucial garantir o tempo de contacto adequado do detergente (normalmente 10-20 minutos) e usar água a cerca de 40°C para maior eficácia. A terceira etapa é a desinfeção das áreas já limpas e secas, seguida de uma nova secagem, indispensável para prevenir a multiplicação das bactérias remanescentes. Além disso, veículos e equipamen tos podem atuar como vetores mecânicos de doenças. A má gestão, como estacionar próximo às entradas dos pavilhões, aumenta o risco de transmissão de patógenos entre explora ções. As práticas de descontaminação recomendadas para pavilhões também se aplicam a estes objetos. Sempre que possível, veículos e equipamentos devem ser expostos ao sol, já que a radiação ultravioleta funciona como um desinfetante natural, contribuindo para sua descontaminação.
Doenças infeciosas causadas por vírus
1. Doença Infeciosa da Bursa
A Doença Infeciosa da Bursa (IBD), também conhecida como doença de Gumboro, é uma enfermidade altamente contagiosa e severa que representa uma ameaça significativa para a produção avícola global. É causada pelo vírus da doença infeciosa da bursa (IBDV), que atinge a bursa de Fabricius, o principal órgão do sistema imunitário das aves. Dependendo da estirpe do vírus e de fatores do hospedeiro, a IBD pode causar grandes perdas económicas devido à mortalidade ou imunossupressão, tornando os bandos afetados mais suscetíveis a infeções secundárias. O vírus possui um genoma com dois segmentos, A e B, que codificam proteínas essenciais para a replicação, tropismo e patogenicidade viral. A diversidade genética e a virulência são ampliadas através da recombinação desses segmentos.
A transmissão ocorre principalmente pela via fecal-oral, com os frangos infetados a apresentarem sinais clínicos como apatia, penas eriçadas, diarreia e taxas de mortalidade variáveis, dependendo da virulência da estirpe viral.
Patologicamente, o vírus causa graves danos na bursa de Fabricius, levando à depleção de linfócitos e consequente imunossupressão. Macroscopicamente, a bursa encontra-se muitas vezes ede matosa (figura 1). O diagnóstico é geralmente feito por exame histopatológico e por métodos moleculares para detetar o RNA viral. Para isso, recolhe-se tecido da bursa de Fabricius. O vírus pode persistir no ambiente e é resistente aos desinfetantes comuns, o que torna exige a adoção de práticas rigorosas de higiene e vacinação para um controlo eficaz.
Os avanços na epidemiologia molecular têm aprimorado a nossa compreensão da diversidade e evolução das estirpes, orientando estratégias de controlo mais direcionadas. Não existe um tratamento eficaz para a IBD, sendo que o sucesso na gestão desta infeção depende de um diagnóstico preciso, medidas rigorosas de higiene e de programas de vacinação estratégicos, adaptados às necessidades específicas dos bandos de aves. As estratégias de vacinação incluem vários tipos de vacinas adaptadas a diferentes fases de desenvolvimento das aves e às condições específicas dos aviários. Os frangos são especialmente vulneráveis nas primeiras semanas de vida, quando o sistema imunitário adaptativo ainda não está total mente desenvolvido. Até que este amadureça, os anticorpos maternos, transferidos através da gema do ovo, oferecem proteção temporária, mas podem interferir com as primeiras vacinas. Para determinar o melhor momento de vacinação, é essencial monitorizar a diminuição desses anticorpos maternos, um processo complexo devido a variabilidades entre lotes de frangos.
Assim, em frangos, existem três tipos de vacinas que podem ser administradas:
Vacinas vivas atenuadas: imitam a infeção natural e estimulam a imunidade celular e humoral. Classificadas como ‘ligeiras’, ‘intermédias’ ou ‘intermédias fortes’, as vacinas ligeiras são menos eficazes na presença de anticorpos maternos, enquanto as intermédias e intermédias fortes têm uma eficácia superior, embora possam causar lesões na bursa de Fabricius e imunossupressão.
Vacinas recombinantes vivas: utilizam um vetor viral para expressar o antigénio VP2 da IBD, sendo eficazes na presença de anticorpos maternos. São administradas em embriões ou pintos recém-nascidos.
Vacinas de imuno-complexo: combinam anticorpos específicos contra a IBD com o vírus da vacina e podem ser administradas em embriões ou em pintos recém-nascidos. Estas vacinas são eficazes mesmo com a presença de anticorpos maternos e permitem processos de vacinação mais automatizados.
As vacinas têm limitações em termos de eficácia e segurança, especialmente contra estirpes variantes e em condições de campo diversas, o que torna a implementação de programas de vacinação adequados um desafio contínuo na prevenção da IBD. Assim, o avanço da investigação, o aperfeiçoamento das estratégias de vacinação e das ferramentas de diagnóstico será crucial para gerir os surtos de IBD e, dessa forma, mitigar o impacto económico do vírus e proteger a produção avícola em todo o mundo.
2. Doença de Newcastle
A Doença de Newcastle é uma patologia de origem vírica de declaração obrigatória, tanto a nível nacional como a nível europeu. O agente etiológico é o Paramixovírus aviário – serotipo 1 (APMV-1). Afetando mais de 250 espécies de aves, incluindo todas as espécies avícolas, a transmissão pode ocorrer horizontalmente, por gotículas orais de aves infetadas e através de fomites ou verticalmente no caso de algumas estirpes, apresentando um período de incubação que pode variar entre 2 e 15 dias. É uma zoonose, podendo causar ligeira conjuntivite em seres humanos. A doença não tem tratamento e é endémica em muitas regiões do mundo, particularmente em alguns países da Ásia, África, Médio Oriente, América Central e América do Sul, tendo um enorme impacto global na indústria avícola devido às enormes perdas na produção em caso de surto, bem como devido às restrições e aos embargos impostos no caso da confirmação da infeção pelo vírus.
As estirpes são classificadas de acordo com a sua virulência em patótipos: assintomática (infeção entérica muito ligeira), lentogénica (sintomas respiratórios leves), mesogénica (sinais respiratórios leves com possíveis sinais neurológicos) e velogénica (sintomas respiratórios e nervosos graves ou sinais gastrointestinais, causando alta mortalidade).
Os sinais clínicos variam amplamente e aparecem rapidamente após a exposição ao vírus, dependendo do patótipo e da idade, sendo as aves jovens as mais suscetíveis. Normalmente podem estar presentes sinais respiratórios, neurológicos ou gastrointestinais. Os sintomas respiratórios podem ir de leves a graves e incluem inchaço nos olhos, dificuldade respiratória, tosse e ruídos respiratórios. Entre os sintomas neurológicos observados estão tremores, movimentos em círculos, paralisia e torção do pescoço. Quanto aos sintomas gastrointestinais, é comum o aparecimento de diarreia verde e aquosa. A mortalidade é variável, podendo em alguns casos atingir os 100%. As lesões macroscópicas não são específicas da Doença de Newcastle e dependem também da estirpe e do patótipo envolvidos. As principais lesões observadas no trato respiratório são traqueíte, pneumonia e aerosaculite. Estirpes velogénicas causam hemorragias em vários órgãos, sendo mais frequentes no intestino, tonsilas cecais, proventrículo e ovários.
O diagnóstico pode ser feito através da observação dos sinais clínicos, do isolamento do vírus e determinação do índice de patogenicidade, mediante testes moleculares ou testes serológicos. Uma vez que os sinais clínicos e as lesões macroscópicas não são patognomónicas, a suspeita da doença deve ser confirmada por isolamento do vírus a partir de tecidos ou zaragatoas orofaríngeas ou cloacais., podendo utilizar- testes moleculares ou serológicos. O PCR é adequado para triagem e confirmação, enquanto a sorologia tem algumas limitações ao nível do diagnóstico, dado que a maioria dos kits ELISA disponíveis não conseguem diferenciar entre infeção de campo e vacinação, sendo, em contrapartida particularmente importante para a monitorização da resposta às vacinas.
O vírus pode ser destruído por desinfetantes habituais, mas pode sobreviver durante várias semanas em matéria orgânica, pelo que uma biossegurança rigorosa e um programa de vacinação adaptado ao desafio de campo são essenciais para prevenir a introdução do vírus nos aviários. É importante realçar que as vacinas protegem contra os sinais clínicos e minimizam as perdas, mas não protegem contra a infeção e excreção do vírus. Quando a doença aparece numa área onde não é endémica, como por exemplo Portugal, a erradicação por eliminação dos bandos infetados é a principal estratégia de controlo em muitos países.
Atualmente, estão disponíveis diferentes tipos de vacinas para frangos:
Vacinas vivas atenuadas: lentogénicas (Hitchner B-1, La Sota, VG/GA) ou mesogénicas. Podem ser utilizadas por vacinação em massa (água de bebida ou spray) ou individualmente (gotas nos olhos).
Vacinas recombinantes baseadas em HVT: podem ser administradas no dia da eclosão, mas demoram cerca de 4 semanas para desenvolverem imunidade significativa. Em áreas com alto desafio do vírus, são necessárias vacinas vivas adicionais para uma proteção adequada. Em Portugal, a vacinação contra a doença de Newcastle de galináceos, perus e pombos é obrigatória.
3. Bronquite Infeciosa Viral
A Bronquite Infeciosa Viral (IBV) é um dos principais desafios para a saúde dos frangos a nível mundial. O agente etiológico é o coronavírus aviário e a transmissão ocorre horizontalmente, por gotículas orais de aves infetadas ou através de fomites.
Dependendo da estirpe presente, a infeção pode provocar doença respiratória aguda ou nefrite. A IBV clássica inclui o serotipo Massachusetts, que infeta o trato respiratório e é observado mundialmente. Já as estirpes causadoras de nefrite são mais comuns na Ásia e nos países do Médio Oriente. No entanto, estirpes específicas da IBV afetam outros tecidos, como o trato gastrointestinal (IBV-Marrocos) e o proventrículo (QX na China). Além disso, a estirpe QX, presente na Ásia, Europa, Médio Oriente e África, pode afetar não só os rins como também o trato reprodutivo, causando elevada mortalidade. De uma maneira geral, os frangos podem apresentar tosse, espirros e ruídos respiratórios ao nível da traqueia por um período de 10 a 14 dias, para além de depressão e redução dos parâmetros produtivos. A morbilidade é geralmente de 100%, mas a mortalidade varia consoante os fatores do hospedeiro, as estirpes e infeções secundárias que estejam presentes.
As infeções por IBV podem ser diagnosticadas através da deteção de um aumento nos títulos de anticorpos por meio de testes como ELISA ou através de testes moleculares como PCR que permitem o isolamento viral. A tipificação do vírus é necessária para identificar qual o sorotipo responsável pela infeção. É importante entender que a utilização extensiva de vacinas vivas contra o IBV complica o diagnóstico da doença, uma vez que nem sempre é possível distinguir uma estirpe de campo de uma estirpe vacinal.
O controlo da IBV em frangos, tal como as outras patologias virais, inclui medidas rigorosas de biossegurança e a aplicação de vacinas vivas. No entanto, a disseminação mundial de muitos tipos antigénicos e o aparecimento de novas variantes do vírus tornam muito difícil obter vacinas eficazes que protejam e previnam a transmissão. Existem duas abordagens principais e muitas vezes opostas em relação à vacinação contra o IBV. Por um lado, existem grupos de especialistas que defendem o uso de vacinas homólogas, enquanto outros preferem vacinas heterólogas. Esta diferença de opinião parte do princípio de que uma vacina homóloga, ou seja, semelhante à estirpe presente no campo, tem uma maior probabilidade de induzir uma imunidade específica contra essa estirpe. Já uma vacina heteróloga procura uma proteção mais abrangente, embora menos específica, contra estirpes circulantes diferentes e potencialmente desconhecidas. Contudo, é comum aplicarem-se soluções “mistas”, combinando uma vacina heteróloga baseada numa estirpe do tipo Massachusetts e uma vacina homóloga. Várias combinações de vacinas têm sido testadas de acordo com os diferentes cenários epidemiológicos, demonstrando um grau variável de proteção dependendo do vírus presente. Assim, as combinações mais frequentes de vacinas aplicadas no frangos e que asseguram geralmente uma boa proteção contra novas variantes, têm como base as estirpes Massachusetts e 793B.
É muito comum na indústria dos frangos misturar e aplicar mais do que uma vacina ao mesmo tempo. No entanto, vários estudos demonstraram que as vacinas vivas contra IBV, Doença de Newcastle, Laringotraqueíte Infeciosa e Metapneumovírus Aviário podem interferir entre si em termos de replicação, resposta humoral e nível de proteção induzida quando administradas em conjunto ou com intervalos relativamente curtos.
Assim, quando se desenha um plano vacinal, é fundamental entender os mecanismos particulares de cada vacina comercial e verificar se existem estudos clínicos acerca da aplicação simultânea com outras vacinas, já que falhas na imunização podem aumentar a suscetibilidade a infeções secundárias e levar à reversão do vírus da vacina para a virulência.
Doenças Infeciosas causadas por Parasitas
1. Coccidiose
A coccidiose é causada pelo parasita protozoário Eimeria e é um problema de saúde importante na indústria avícola, resultando em perdas económicas significativas. O ciclo de vida da Eimeria envolve fases distintas essenciais para a sua sobrevivência e transmissão. Após completar a fase endógena nas células intestinais dos frangos, os oocistos de Eimeria são libertados através das fezes, envolvidos numa parede protetora que assegura a sua sobrevivência no ambiente. Condições como humidade e temperatura específicas promovem a esporulação, transformando oocistos não infeciosos em formas esporuladas infeciosas. Oocistos esporulados podem sobreviver fora do hospedeiro por longos períodos, resistindo a danos mecânicos e químicos, bem como a mudanças de humidade e temperatura por meses ou até anos. Consequentemente, a maioria dos bandos de frangos em todo o mundo está exposta a eles e, como tal, muitos frangos acabam infetados.
Parasitas entéricos, como a Eimeria, invadem a mucosa intestinal e causam diferentes graus de lesão às células epiteliais e inflamação, variando os sinais clínicos desde enterite leve até lesões hemorrágicas graves (figura 2) e até morte. O sinal mais evidente da coccidiose é a diarreia, sendo que a gravidade dos sinais clínicos é influenciada pela espécie de Eimeria presente na infeção, fatores nutricionais, doenças concomitantes e fatores genéticos do hospedeiro. É importante notar que surtos não controlados geralmente levam a alta morbidade e mortalidade e infeções parcialmente controladas resultam em doenças subclínicas com impacto econômico significativo devido à má conversão alimentar e redução de ganho de peso, comprometendo o crescimento.
A infeção por Eimeria também pode agravar os efeitos da exposição a outros patógenos, como Clostridium perfringens, levando a enterite necrótica. Em frangos, as principais espécies de Eimeria são E. acervulina, E. maxima, E. tenella, E. mitis e E. praecox. Estas diferenciam-se pelo número de gerações de esquizogonia, características físicas como o tamanho do oocisto e características biológicas como o local de desenvolvimento intestinal, patogenicidade e imunogenicidade. Ocorrendo um surto de coccidiose com manifestação de sintomas clínicos, dificilmente se conseguirá prevenir os danos. Contudo, o tratamento com medicamentos na água de bebida deve ser iniciado rapidamente, com o uso de sulfonamidas, amprolium ou toltrazuril.
Devemos ter em consideração que aves saudáveis também podem estar infetadas com Eimeria. Assim, é crucial considerar o histórico do bando (infeções anteriores, morbidade, mortalidade, consumo de ração) e scores de lesão antes de diagnosticar ou recomendar um tratamento. A coccidiose é frequentemente desafiadora de diagnosticar e só pode ser identificada com precisão em laboratório, contando o número de oocistos por grama de fezes e examinando o trato intestinal para pontuar o grau de lesão numa uma escala de 1 a 4 conforme a gravidade das lesões observadas no intestino das aves infetadas.
A gestão eficaz da coccidiose envolve uma combinação de boas práticas de maneio, o uso profilático de medicamentos coccidiostáticos e vacinação.
Embora a quimioprofilaxia seja globalmente mais utilizada em frangos, nos últimos anos a vacinação tem ganho cada vez mais adeptos.
As práticas de maneio são essenciais para reduzir a esporulação dos oocistos e evitar a recontaminação das aves. Isso inclui limitar a exposição das aves a fezes, garantir boa qualidade da cama, controlar a temperatura, ventilação e humidade das instalações e realizar limpezas profundas nos pavilhões após cada bando. Limitar o acesso humano às instalações também é importante, mas a biossegurança por si só não é suficiente para um controlo eficaz da doença.
O uso profilático de medicamentos coccidiostáticos envolve duas categorias: ionóforos, que são produzidos por fermentação de certos microrganismos, e compostos sintéticos, que atuam através de diferentes mecanismos. Durante muitos anos, os ionóforos foram a principal escolha, uma vez que permitem o desenvolvimento gradual de imunidade nas aves, evitando a eliminação total do parasita. No entanto, a resistência a esses medicamentos tem-se espalhado e a pressão pública e legislativa para reduzir o uso de medicamentos na produção de frangos tem aumentado.
A vacinação surge como a principal alternativa para o controlo da coccidiose. Embora seja amplamente utilizada em galinhas poedeiras e reprodutoras, a sua aplicação em frangos tem aumentado nos últimos anos. Essas vacinas consistem em diferentes espécies de Eimeria e podem ser administradas por vários métodos, como pulverização direta, em gel comestível ou na água de bebida idealmente no primeiro dia de vida dos animais. A vacinação completa requer a utilização de oocistos de todas as espécies de Eimeria, pois a imunidade contra uma espécie não confere proteção contra outras. Além disso, a vacinação com oocistos vivos visa estimular uma resposta imunitária precoce e a exposição contínua a oocistos selvagens no ambiente é fundamental para a construção da imunidade protetora. A vacinação cuidadosa é essencial para garantir que todos os pintos recebam exposição adequada aos oocistos vacinais. Atualmente, as vacinas mais utilizadas são vacinas vivas atenuadas que utilizam linhagens de Eimeria selecionadas para desenvolver um ciclo de vida mais curto e menor patogenicidade, mas mantendo a imunogenicidade.
Por fim, para gerir a resistência à coccidiose, podem ser implementados programas rotativos que envolvem a utilização de coccidiostáticos e vacinação. Chapman et al. (Chapman & Jeffers, 2014) propõem uma estratégia para gerir a coccidiose em frangos ao longo de um ciclo de um ano envolvendo seis lotes consecutivos. Durante os dois primeiros lotes (de janeiro a abril) são utilizados coccidiostáticos. Em seguida, a cama é limpa para diminuir os níveis de Eimeria antes da introdução do próximo lote e os dois lotes seguintes (de maio a agosto) são vacinados com estirpes sensíveis para repovoar o ambiente. Finalmente, nos dois últimos lotes (de setembro a dezembro) são utilizados novamente coccidiostáticos diferentes para potencialmente melhorar a eficácia.
Doenças Infeciosas causadas por Bactérias
1. Colibacilose
A colibacilose é uma doença resultante da infeção pela bactéria Escherichia coli. Esta bactéria está geralmente presente
no intestino das aves e, embora muitas estirpes de E. coli não causem doença, algumas desenvolveram fatores de virulência, aumentando consideravelmente a sua capacidade de provocar infeções. A E. coli pode atuar como um patógeno primário quando há uma elevada pressão de campo, proveniente de sistemas de água potável muito contaminados. No entanto, na maioria das vezes, a E. coli é um patógeno secundário, sendo a sua entrada facilitada por infeções virais, por níveis elevados de amoníaco ou por problemas na integridade da parede intestinal, causados por disbiose ou enterite.
A maioria das estirpes provêm dos serogrupos O1, O2 e O75. Existem E. coli patogénicas intestinais e extraintestinais. Entreas estirpes intestinais, incluem-se as enteropatógeneas, entrotoxigénicas, enteroinvasivas, enterohemorrágicas e enteroagregativas. Três estirpes extraintestinais incluem a E. coli patogénica aviária (APEC) e a E. coli uropatógenea.
Os problemas mais frequentes causados por essa bactéria, que muitas vezes levam à mortalidade, incluem onfalite, infeções respiratórias e septicémia. Em casos subagudos, são comuns a pericardite, aerosaculite e perihepatite, condições que frequentemente resultam na eutanásia dos frangos ou na condenação das carcaças nos matadouros. As infeções por E. coli têm-se tornado cada vez mais comuns, particularmente nos países que adotaram a política da produção de frangos sem recurso a antibióticos.
O diagnóstico baseia-se no isolamento e identificação de E. coli a partir de lesões, utilizando vários meios de cultura, preferencialmente amostras do pericárdio, fígado, baço ou medula óssea. Testes moleculares como o PCR permitem identificar os diferentes fatores de virulência presentes na infeção.A resistência a medicamentos, em muitos casos, é um grande problema. Globalmente, as taxas médias de resistência da E. coli a diversas classes de antibióticos são superiores a 40%.
As estratégias alternativas aos antibióticos para o controlo da E. coli incluem probióticos, prebióticos, simbióticos e pós-bióticos. Contudo, a maioria deles tem eficácia variável e mais estudos são necessários para aferir as reais capacidades. Em frangos, a vacina existente para proteção contra E. coli é uma vacina viva atenuada do serotipo O78. A resposta imunitária visa a produção imunoglobulina A e células CD8. A vacinação contra E. coli ainda enfrenta vários desafios, como induzir proteção cruzada contra vários serogrupos APEC.
Outras estratégias alternativas de controlo incluem biossegurança, tratamento adequado da água e boa qualidade do ar.
Conclusão
Como vemos, a produção de carne de frango enfrenta desafios significativos diante do seu crescimento contínuo, sendo fundamental que o setor se ajuste para atender às exigências relacionadas com o bem-estar animal, segurança alimentar, impacto ambiental e controlo de doenças. O crescimento da produção deve ser acompanhado de uma intensificação das medidas de biossegurança, maneio adequado e vigilância, com o objetivo de garantir que os animais se mantenham saudáveis e a produção seja sustentável a longo prazo.Doenças infeciosas, como a Doença Infeciosa da Bursa, Doença de Newcastle, Bronquite Infeciosa Viral, Coccidiose e Colibacilose, representam ameaças constantes à saúde das aves e à rentabilidade do setor. Cada uma dessas doenças exige abordagens específicas para controlo e prevenção, incluindo o uso de vacinas, diagnósticos rápidos e rigorosos e práticas de maneio que minimizem a exposição a agentes patogênicos. A biossegurança desempenha um papel crucial nesse contexto, funcionando como a primeira linha de defesa contra surtos e propagação de doenças, tanto dentro quanto fora dos pavilhões de criação.
A vacinação emerge como uma das estratégias mais eficazes no controlo dessas doenças, mas a diversidade de estirpes e a evolução dos agentes patogénicos tornam esse controlo um desafio constante.
Além disso, o uso racional de antibióticos e alternativas como probióticos são fundamentais para reduzir a resistência bacteriana, uma preocupação crescente na avicultura moderna.
Outro ponto crucial é o impacto ambiental da produção de carne de frango. A otimização dos processos produtivos, a gestão de resíduos e a implementação de sistemas sustentáveis de produção são vitais para mitigar os efeitos ambientais, atendendo às expectativas de consumidores cada vez mais preocupados com questões ecológicas.
Portanto, para garantir a continuidade do crescimento da produção de carne de frango, de modo sustentável e eficiente é necessário um esforço coordenado entre biossegurança, práticas de maneio, uso de tecnologias avançadas e compromisso com a saúde das aves. A integração desses fatores não só melhora o bem-estar animal e a saúde pública, como assegurar a viabilidade económica do setor avícola, enfrentando os desafios de um mercado global cada vez mais exigente.
Miguel Carvalho, Médico Veterinário, Technical Services/Poultry Business UnitHIPRA Animal Health Portugal