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Monitorização e gestão diferenciada das pastagens e do pastoreio: Contributo para a intensificação sustentável da produção animal extensiva

Monitorização e gestão diferenciada  das pastagens e do pastoreio: Contributo para a intensificação sustentável da produção animal extensiva

O “Montado” é um ecossistema misto, agro-silvo-pastoril, constituído por um estrato herbáceo onde predominam as pastagens permanentes, naturais ou semeadas, um estrato arbóreo com especial incidência de sobreiros (Quercus suber L.) e azinheiras (Quercus ilex ssp. rotundifolia Lam), pastoreado por animais (ovinos, bovinos, caprinos e suínos) em regime extensivo (Serrano, 2019).

Nas últimas duas décadas implementou-se em todo o Mundo o conceito de Agricultura de Precisão, AP (ou de Zootecnia de Precisão, ZP, no caso específico da produção animal). Este conceito incorporou no setor agropecuário tecnologias muito diversas, fundamentalmente e de forma genérica, recetores GNSS (“Global Navigation Satellite Sys tem”), sensores próximos e remotos, sistemas de informa ção geográfica (SIG´s) e atuadores. Estas tecnologias vieram operacionalizar as diferentes fases do ciclo de AP/ZP (Figura 2). As ferramentas tecnológicas colocadas à disposição do gestor permitiram-lhe um conhecimento mais detalhado do processo produtivo e, consequentemente, o apoio à tomada de decisão.

O setor da produção animal extensiva acompanhou estes desenvolvimentos, abrindo boas perspetivas para uma intensificação sustentável. Intensificação poderá ser, por exemplo, no sentido de aumentar encabeçamentos (maior carga animal por unidade de área de pastoreio), com base na gestão adequada da fertilidade do solo e do aumento da produtividade/qualidade das pastagens.

Um melhor conhecimento sobre a produtividade da pastagem, através de sensores próximos, como é o caso do prato compressor ascendente (RPM- “Rising Plate Meter”; Figura 3), permite substituir a estimativa grosseira baseada na “experiência empírica”, promovendo um planeamento mais rigoroso da rotação dos animais entre parcelas, potenciando a utilização da pastagem, evitando também situações de Subpastoreio ou de sobrepastoreio. Intensificação sustentável pressupõe que a mesma deve garantir a preservação do ecossistema, neste caso, do Montado e, por isso, da funcionalidade do solo, da biodiversidade da pastagem, do vigor e longevidade das árvores e, claro, da saúde, bem-estar e produtividade dos animais. Estes propósitos procuram também corresponder aos desafios colocados pelo crescimento da população mundial e o consequente aumento da pressão sobre os recursos disponíveis. As tecnologias de taxa variável (“Variable Rate Technology”, VRT; correspondem ao fechar do ciclo de AP/ZP, concretizando a gestão diferenciada de fatores como adubos, corretivos, produtos fitossanitários ou água. Esta perspetiva ajusta a aplicação às necessidades que o solo ou a cultura apresentam, evitando o desperdício de fatores de produção associado à aplicação uniforme.

A incorporação tecnológica a baixo custo ganhou especial ênfase através da deteção remota. O aproveitamento do acesso gratuito a imagens de satélite (por exemplo, da constelação “Sentinel-2”), trouxe uma grande diversidade de índices, entre eles o NDVI (“Normalized Difference Vegetation Index”), o qual se encontra fortemente correlacionado com os teores de clorofila da vegetação e, por isso, com os teores de proteína bruta da pastagem. Este parâmetro é um excelente indicador de qualidade.

A monitorização expedita da variabilidade da qualidade da pastagem, a escalas muito aceitáveis, tanto espacialmente (pixel do NDVI de 10 m por 10m) como temporalmente (periodicidade de 5 em 5 dias), disponibiliza ao gestor importante informação, mapas de qualidade que, associa dos à informação da produtividade, poderão ajudar a planear e a minorar os custos com a suplementação alimentar dos animais (com feno ou com alimentos concentrados), particularmente no final da Primavera/início do Verão e no início do Outono. Estes são considerados períodos críticos nos sistemas de produção animal extensivos do Alentejo, dada a escassez de precipitação que os caracteriza.

A tentativa de intensificação dos sistemas de produção ani mal através do aumento das cargas animais (encabeçamentos) ou de sistemas de pastoreio diferido (em vez de baixas cargas animais e pastoreio contínuo), levanta reservas, por exemplo, quanto ao impacto que poderão ter no solo e/ou na pastagem. Estudos realizados com diferentes sistemas de pastoreio, quer de bovinos (Serrano et al., 2023a), quer de ovinos (Serrano et al., 2023b), realizados na herdade da Mitra (Universidade de Évora), mostraram que o impacto no solo, medido pelo “Cone Index” (CI; ou resistência à penetração) avaliado por um cone penetrómetro eletrónico (Figura 6), não mostrou diferenças significativas (agravamento da compactação do solo) quando se optou por maiores cargas animais (2 cabeças normais em vez de uma) e pastoreio diferido (com períodos intercalados, de pastoreio e de repouso na parcela), em comparação com sistemas de pastoreio contínuo, com baixos encabeçamentos.

As ferramentas tecnológicas atualmente disponíveis trazem respostas de monitorização e gestão que poderão transformar a produção animal extensiva tal como ainda hoje é entendida e praticada no Alentejo. Têm a palavra os novos gestores agropecuários, providos de conhecimento e com visão empresarial, conscientes também do impacto ambiental da atividade e da necessidade de preservar os recursos, cada vez mais escassos e, naturalmente, mais caros.

 

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