A o longo de décadas, temos vindo a acompanhar a “revolução” da tecnologia na gestão agrícola e ambiental. De imagens térmicas à análise geográfica, o conhecimento está disponível e ao alcance de um clique. Mas há quem diga que “tudo isto consome recursos e uma burocracia brutal”. O problema, portanto, não é a ciência. É a decisão de usá-la.
Numa era em que a tecnologia parece avançar mais rápido do que a nossa capacidade de refletir sobre ela, José Aranha, docente e especialista em cartografia, defendeu durante a recente Semana da Agricultura da UTAD que o verdadeiro desafio não é ensinar a mexer nos aparelhos, mas sim a entender a lógica por trás deles. “É muito mais importante saber por que se carrega nos botões do que saber carregar nos botões”, afirma, numa crítica direta ao uso superficial da tecnologia.
Ao desenvolver o tema “Monitorização de atividade animal de deslocação de rebanhos ou de pastorícia”, Aranha desta cou a uma sala cheia de alunos a importância de cultivar o “sentido crítico” entre profissionais que lidam com sistemas como o GPS, a deteção remota e a Internet das Coisas. Para ele, essas ferramentas não são propriamente novas - “nós começamos a trabalhar nestas tecnologias em 1991”, mas sim cada vez mais integradas na gestão de recursos, desde o monitoramento de rebanhos até à análise territorial para prevenir incêndios.
Tipo de informação que permite ajustar práticas de maneio
No caso das pastagens, por exemplo, as ferramentas tecnológicas são utilizadas para estudar o comportamento alimentar dos animais - o que comem, por onde andam, que zonas preferem. “As cabras só comem tudo se houver pouco alimento; caso contrário, são extremamente seletivas”, explica. É esse tipo de informação que permite ajustar práticas de maneio, rega e fertilização de acordo com a dinâmica do gado.
Aranha também abordou a aplicação destas tecnologias no contexto ambiental e de gestão do território. Um exemplo é a prática tradicional de utilizar fogo para limpar terrenos, que ainda hoje é comum entre pastores. “Não estou a dizer que os pastores são incendiários, mas sim que é uma prática cultural que precisa de ser compreendida e gerida.” Foi nesse sentido que surgiu um projeto pioneiro para cartografar zonas de pastoreio e identificar locais estratégicos para fogos controlados no inverno, minimizando o risco de incêndios descontrolados no verão.
Para o especialista, as tecnologias são apenas ferramentas. “O que interessa é a história que contamos com os dados.” E essa história começa sempre com uma pergunta bem feita, um olhar atento e uma mente crítica.