M icotoxinas não são apenas uma questão técnica. São um desafio diário e “real”, que exige conhecimento, ferramentas adequadas e uma postura ativa de todos os envolvidos na produção animal.
Foi com um desafio assumido que Marta Tavares, formada em ciências farmacêuticas e em medicina veterinária, iniciou a sua intervenção na recente Semana da Agricultura na UTAD, sobre o tema “Micotoxinas: Diagnóstico e gestão para uma pecuária de alta performance”. Marta Tavares desenvolveu toda uma explicação séria e esclarecedora sobre o impacto que estas substâncias invisíveis - metabólitos secundários de fungos - podem ter na saúde animal, na produtividade e, em última instância, na saúde pública. “As micotoxinas não se veem, são moléculas pequeninas. Não têm odor, não têm sabor, e por isso é tão difícil detetá-las. Mas os seus efeitos são muito reais e podem ser devastadores”, alertou. O perigo, sublinhou, está na invisibilidade: ali mentos visualmente intactos podem esconder níveis críticos de contaminação.
“O armazenamento em más condições só agrava um problema que já começou antes”
Apesar de tradicionalmente associadas a problemas de armazenamento, Marta fez questão de desmistificar essa ideia. “O tema das micotoxinas começa no campo. Os fungos crescem nas culturas, como o milho, muito antes da colheita. O armazenamento em más condições só agrava um problema que já começou antes.
No centro da apresentação esteve o impacto transversal das micotoxinas nas diferentes espécies animais. “Todas as micotoxinas afetam vários órgãos e sistemas. Comprometem o sistema imunitário, a função hepática, a reprodutiva. E o mais complicado é que os sintomas não são específicos. São doenças que se manifestam de forma difusa e difícil de associar diretamente à alimentação.” A especialista destacou ainda que um fungo pode produzir múltiplas micotoxinas e que estas podem interagir entre si, agravando os seus efeitos. “Não é um mais um igual a dois. As micotoxinas muitas vezes potenciam-se umas às outras, e isso torna o diagnóstico e o controlo ainda mais complexos.”
E mesmo os ruminantes, tradicionalmente considerados mais resistentes, não estão imunes. “É verdade que as vacas têm alguma resistência natural, mas com as dietas modernas, ricas em hidratos de carbono fermentáveis, alteramos a flora ruminal e perdemos essa proteção. As vacas são estoicas, mas não são invencíveis.” Para os técnicos de campo e veterinários, a mensagem foi direta: “A micotoxicose clínica é apenas a ponta do iceberg. Quando vemos uma vaca com diarreia, com uma performance reprodutiva abaixo do esperado ou com menos apetite, podemos estar a ver apenas os sinais mais visíveis de um problema silencioso, mas persistente.”
Micotoxinas: “um inimigo invisível” que exige diagnóstico, prevenção e ação rápida
As micotoxinas são um dos maiores desafios silenciosos da produção animal, afetando desde a qualidade das rações até a segurança alimentar. Marta Tavares, deixou claro que este “é um problema real” e que está longe de ser apenas uma preocupação teórica. “As micotoxinas e as micotoxicoses cada vez mais estão na cabeça para ser um diagnóstico diferencial”, alertou Marta. E esse alerta não é em vão: apesar de invisíveis a olho nu, essas toxinas produzidas por fungos podem comprometer severamente a saúde animal e a qualidade dos alimentos de origem animal. Marta reforçou que existem diferentes técnicas para deteção de micotoxinas. Algumas, como as utilizadas em fábricas de rações, permitem decisões rápidas - “analisar hoje e decidir para amanhã” - mesmo com algumas limitações. Já outras, chamadas de Gold Standard, são mais confiáveis, porém lentas, caras e exigem técnicos especializados. Por isso, no dia a dia, a escolha recai sobre as técnicas “menos fidedignas, mas mais práticas”. Além disso, tecnologias como o NIR (Near Infrared Reflectance) já são capazes de medir micotoxinas com alguma precisão, embora ainda apresentem limitações.
Estratégias de prevenção: do campo ao silo
A prevenção começa muito antes da colheita. Marta compartilhou sugestões valiosas: rotação de culturas, uso de varie dades mais resistentes a fungos, e evitar sementeiras diretas podem diminuir a incidência de micotoxinas.
A colheita também é um ponto crítico, sobretudo em anos de instabilidade climática. “Quando é para colher está a chover... e depois quando vamos lá, já está tudo mofado”, relatou. Essa realidade, vivida por muitos produtores, contribui para alimentos degradados e altamente contaminados.
Já em casa, práticas como o correto acondicionamento das forragens, uso de impermeabilização, pressão adequada nos silos e velocidade de consumo fazem a diferença. “Tudo isso mitiga a ocorrência de micotoxinas”, frisou.
Quando a contaminação já está presente: o que fazer?
Nem sempre é possível evitar a contaminação, e quando ela chega, medidas devem ser toma das. Historicamente, as bentonites foram as primeiras soluções disponíveis - substâncias que “colam” as micotoxinas à sua superfície. Mas essa estratégia tem limitações. “A maior parte das outras micotoxinas têm mais dificuldade de ser absorvidas por estas bentonites”, explicou Marta.
Hoje, há alternativas mais avançadas, como enzimas e microrganismos que biotransformam as toxinas, tornando-as inativas ou inofensivas. Produtos mais modernos combinam essas abordagens, oferecendo proteção mais abrangente. Micotoxinas não são apenas uma questão técnica. São um desafio diário e “real”, que exige conhecimento, ferramentas adequadas e uma postura ativa de todos os envolvidos na produção animal.
“Isto não é um assunto esotérico. Isto é fisiologia. E pode de facto acontecer”, concluiu Marta.