C om mais de 75 anos de experiência na produção e comercialização de sementes, a Ramiro Arnedo tem contribuído para o aumento da rentabilidade agrícola e para uma maior segurança nas plantações. A empresa espanhola aposta na inovação genética e na adaptação das suas variedades, destacando-se no mercado com culturas como o pimento, alface, cebola e melão, que apresentam ainda um elevado rendimento produtivo, fácil maneio e maior qualidade. Em entrevista, Julián Arnedo, presidente da empresa, fala sobre o presente e o futuro da marca em Portugal, sublinhando a importância da proximidade com os agricultores aliada à investigação.
Como caracteriza a presença de Ramiro Arnedo em Portugal?
Dada a proximidade e até a semelhança entre mercados, a presença em Portugal é uma escolha natural. Claro que cada mercado tem as suas especificidades, por isso temos pesqui sas focadas no mercado português para determinadas cultu ras. Cada vez mais nos vemos como uma empresa ibérica atenta a cada área de produção e às suas necessidades.
Há quanto tempo a empresa opera no mercado português e como evoluiu desde então?
A Ramiro Arnedo está presente no mercado português há várias décadas, mas só após a contratação de Bruno Estêvão como nosso representante no país é que conseguimos um crescimento significativo, com praticamente todos os produtos do nosso catálogo adaptados às necessidades do mercado português.
Qual a importância do mercado português na estra tégia global da empresa?
Portugal é incrivelmente importante pela proximidade e pelo prazer de trabalhar no país e com as suas gentes. Alcançámos excelentes resultados graças ao profissionalismo, trabalho árduo e qualidade de comunicação entre os colaboradores da nossa empresa e aos nossos clientes portugueses. Isto dá-nos muita confiança de que conseguiremos continuar a crescer, e é por isso que tentamos investir cada vez mais.
Quais são as principais culturas e variedades que Ramiro Arnedo oferece em Portugal?
Existe uma grande variedade de culturas que vendemos em Portugal. De qualquer forma, gostaria de destacar o pimento tipo lamuyo, Sorzano F1 e o pimento tipo Padrón que não pica, Celta F1. Na alface, variedades como a Laurentina (frisada verde) e a Vitorina (frisada roxa) estão a entrar no mercado. Na cebola, temos duas opções que estão a consolidar a sua presença: a Pisa F1, uma variedade de dias curtos, e a Sírio F1, uma variedade de dias longos. No melão amarelo, a nossa mais recente oferta em Portugal é a variedade Hawaii F1. Esperamos ter mais notícias sobre melões e tomates, bem como outras culturas, em breve. Estamos num negócio em constante evolução, por isso a nossa investigação não pode parar.
Julián Arnedo, presidente da empresa
Qual o papel da inovação genética no desenvolvi mento dos seus produtos?
A inovação é a base de uma empresa de sementes, uma vez que a agricultura gera continuamente novos desafios. Não só por causa de novas doenças que frequentemente interrompem a produção, ou por causa das alterações climáticas ou da degradação da terra devido a práticas inadequadas, mas também por causa das mudanças no gosto das pessoas e das necessidades cada vez mais exigentes de todos os membros da cadeia de produção e distribuição. São necessárias variedades com uma germinação quase perfeita, maior produtividade e melhor prazo de validade, e a genética é onde tudo começa.
No final de 2023, a empresa anunciou que iria avançar com investigações em Portugal. Fale-nos um pouco sobre essa pesquisa.
A investigação está em curso! É algo que nunca pode ser interrompido. Temos uma perspetiva sustentável a longo prazo, por isso não pretendemos saltar nenhuma etapa. A investigação por si só não é garantia de novas variedades, mas aliada à resiliência, paciência e profissionalismo, sabemos que resultará em variedades de topo. É uma mara tona, não uma corrida de velocidade. Atualmente temos programas de investigação em curso com pimentos, alface, melões e tomates. Testamos outras culturas em Portugal, sejam elas variedades estabelecidas no nosso catálogo ou variedades em fase pré-comercial.
Qual o peso dos resultados portugueses nas decisões empresariais?
Portugal é importante para nós porque não é só a dimensão do mercado que importa, mas também a confiança que temos nos seus membros e a capacidade de tomar decisões com base em informação de qualidade. É o caso de Portugal, e a dimensão da Ramiro Arnedo permite-lhe desenvolver, em muitos casos, produtos específicos para o mercado português.
Como aborda os agricultores portugueses?
A nossa relação com o produtor procura agregar valor. Nos nossos ensaios, procuramos trabalhar com produtores líderes de culturas que nos possam ajudar a melhorar e a direcionar melhor a nossa investigação. Não se trata do que queremos ouvir, mas do que precisamos de ouvir. Penso que hoje em dia, e de um modo geral, o próprio produtor quer experimentar, porque sabe que há sempre espaço para melhorar. Esta abertura e humildade por parte do produtor facilita o nosso trabalho.
A empresa trabalha diretamente com produtores ou através de distribuidores locais?
Dispomos de uma variedade de sementes para amadores, Jardiver, com as quais procuramos trabalhar através de distribui dores. Por outro lado, no campo profissional consideramos muito importante a proximidade com o produtor/cliente. O feedback não filtrado que recebemos através desta proximi dade é muito importante. A proximidade aos produtores e viveiros é muito importante.
Que tipo de apoio técnico e monitorização têm no setor?
Temos um delegado de vendas, Bruno Estevão, em Portugal, com um vasto conhecimento técnico e de mercado, apoiado pela equipa de vendas e pelos especialistas de produto da empresa.
Qual tem sido a adesão dos agricultores aos vossos produtos?
Os produtores devem ver alguma vantagem ou valor acrescentado na escolha de uma variedade específica. Acredito que reconhecem o nosso profissionalismo e persistência na procura destes benefícios, assim como reconhecemos o seu empenho e profissionalismo. É importante que a sociedade reconheça o papel dos produtores e, embora considere mos frequentemente a disponibilidade de alimentos como garantida, reconhecemos que é necessário muito trabalho e parcerias para garantir a qualidade e a quantidade. Procuramos contribuir com o produtor e encontrar soluções em conjunto. Como procuramos fazer parte da solução, somos bem-vindos.
Existem regiões ou culturas onde a empresa se sente mais aceite ou reconhecida?
Temos consciência de que somos essencialmente reconheci dos pelo pimento. É uma cultura muito importante no pano rama nacional devido a toda a investigação que lhe dedicamos e, obviamente, pela sua importância comercial. O nosso desafio em Portugal é continuar a ser reconhecidos pelas variedades de pimento e garantir que as pessoas nos continuam a considerar uma referência, enquanto nos destacamos como uma referência noutras culturas. Já está em curso!
Quais os fatores que mais influenciam a seleção de sementes pelos produtores em Portugal?
Em Portugal, como nos restantes países, os produtores dão importância a vários aspetos, como a germinação, a produti vidade, as resistências e a qualidade do produto final, tendo sempre em conta o que o mercado pede.
Quais são os principais desafios que Ramiro Arnedo vê no mercado agrícola português?
É preciso estarmos atentos ao mercado e à sua constante mudança. Talvez o maior desafio seja prever o que irá ser necessário “amanhã”, quer a nível de resistências, quer a nível de tendências de mercado. Tendo em conta o tempo que demora a desenvolver uma variedade, não podemos esperar que o mercado peça para começar a investigação.
Há planos para lançar novas variedades este ano?
Todos os anos realizamos ensaios junto dos agricultores e selecionamos variedades que visam melhorar o desempenho dos agricultores. É um trabalho de melhoria contínua, pois a variedade perfeita não existe.
Como vê o futuro da agricultura portuguesa?
Portugal é um país com uma forte cultura agrícola, com muitas famílias ligadas ao campo e conhecedoras do setor. Não restam dúvidas sobre a importância da agricultura para o nosso futuro em geral, uma vez que a população mundial continua a crescer, mas os desafios impostos por múltiplas alterações, sejam elas climáticas, demográficas ou políticas, são muitos. Isto irá gerar muitas mudanças e novos conhecimentos, e provavelmente acabaremos por tornar a agricultura muito mais tecnológica. Espero que isto faça com que o trabalho dos agricultores seja muito mais apreciado. De qualquer modo, estou otimista quanto ao futuro da agricultura em Portugal.