F undada há quase 40 anos, a ACICO representa os operadores nacionais no setor dos cereais e oleaginosas. Nesta entrevista, Rui Miguel Costa, presidente da associação, explica como têm respondido a crises globais, novas exigências europeias e à crescente pressão sobre a cadeia de abastecimento alimentar.
Qual é a missão principal da ACICO e há quanto tempo atua no setor agroalimentar?
A ACICO é uma associação de direito privado sem fins lucrativos, constituída em 10 de setembro de 1985, e tem como objetivo defender e promover os interesses globais e comuns dos associados (empresas traders de agrocommodities, des carga e armazenagem portuária e prestadores de serviços conexos). Dialogar, dar pareceres e propor medidas à Administração Pública, outras associações, organizações sindicais e o público em geral sobre assuntos de interesse para o setor.
Quais são os principais objetivos da associação junto dos seus associados e do mercado nacional?
Internamente, a ACICO intervém em defesa dos interesses comuns dos associados junto de todas as entidades, públicas ou privadas relevantes para o setor, tais como Ministérios, Administrações Portuárias, empresas portuárias ou transportadoras, entidades de fiscalização em matéria de higiene e segurança alimentar, associações dos setores a jusante, etc. Fornece ainda aos associados informação pertinente de carácter legislativo (base de dados atualizada), regulamentar, estatística, mercados e política comercial, ambiente, higiene e segurança alimentar. Externamente a ACICO é membro da COCERAL – Committee of the trade in Cereals, Oilseeds, Pulses, Olive Oil, Oils and Fats, Animal Feed, and Agrosupply of the EU, a associação euro peia que representa o trading de cereais, oleaginosas e outros produtos para a indústria da alimentação humana e animal. A COCERAL tem como associada a UNISTOCK, associação que representa os silos e terminais portuários europeus. No âmbito interno a ACICO é membro do CPC – Conselho Português de Carregadores.
Quantos membros ou empresas fazem atualmente parte da ACICO?
A ACICO conta com 17 Associados, 10 Ordinários e 7 Obser vadores.
Como a ACICO colabora com entidades públicas e internacionais no setor dos cereais e oleaginosas?
Como já referido, a ACICO é membro da associação europeia que representa o trading de cereais e outras matérias-primas para a agroindústria participando, por essa via, em reuniões com a Comissão Europeia e outros fóruns de relevo para o setor. A ACICO mantém relações institucionais regulares com embaixadas e particularmente adidos comerciais ou agrícolas dos principais países originadores das matérias-primas importadas por Portugal, como é o caso do Brasil, USA, Argentina e França. Também são mantidos laços com associações congéneres de outros países. A nível interno a ACICO colabora estreitamente com organismos da administração central, principalmente dos Ministé rios da Agricultura, Economia, Finanças e Infraestruturas, com destaque para a DGAV e o GPP.
Quais têm sido os principais desafios do setor identificados pela ACICO nos últimos anos?
As políticas europeias adotadas no âmbito do “green deal”, nomeadamente em matéria de desflorestação, sustentabilidade e de diligência devida nas origens das matérias-primas traduzem-se numa sobrecarga burocrática com custos acrescidos para as empresas e, em última análise para os consumidores. Uma sobrecarga que não é exigida por outros mercados de destino das mercadorias e que pode levar à perda de origens de abastecimento e de competitividade dos operadores europeus. Por outro lado, as exigências em matéria de higiene e segu rança alimentar na Europa, com limites cada vez mais baixos de contaminantes e substâncias indesejáveis, sem paralelo noutros mercados e de justificação discutível, têm natural mente um impacto acrescido nos custos de abastecimento e, em consequência numa perda de competitividade da nossa indústria alimentar.
Como a associação tem acompanhado e respondido às mudanças nas cadeias de abastecimento e no comércio global?
A nossa associação, a confederação europeia do setor, a COCERAL (e UNISTOCK) e o CPC, têm acompanhado as questões logísticas levantadas por crises como a pandemia, guerras ou conflitos regionais como é caso da guerra na Ucrânia ou o terrorismo no Médio-Oriente e particularmente no Mar Vermelho. As empresas associadas da ACICO tiveram um papel assinalável na manutenção dos abastecimentos durante estes períodos, seja pela procura de outras origens, seja pela adaptação imediata aos cenários existentes, tendo sido mantidos os abastecimentos regulares a Portugal sem que ficassem por cumprir quaisquer contratos de venda.
Que papel desempenha a ACICO na defesa dos interesses dos armazenistas e importadores portugueses?
A ACICO, através de uma articulação contínua com o Governo, a Administração Pública e os principais agentes da cadeia de abastecimento, atua no sentido de superar os desafios do setor, garantindo a continuidade do fornecimento ao mercado com máxima eficiência e segurança.
Realizaram recentemente mais uma edição da Portugal’s Commodities Exchange? Quais os principais objetivos da iniciativa?
O principal objetivo consiste em institucionalizar um fórum no qual os fornecedores (empresas de trading, armazenagem e serviços conexos com a nossa atividade) clientes (indústria agroalimentar) organismos da administração pública nacionais e estrangeiros e outras associações de setores a jusante se possam encontrar, estabelecer contactos e partilhar “know--how” num ambiente informal.
Que temas foram abordados?
Temos sempre uma primeira parte, na qual convidamos os responsáveis das nossas empresas associadas a partilhar as suas análises dos mercados das principais matérias-primas (cereais, oleaginosas e arroz) e as perspetivas para a nova campanha que agora começa (2025/2026). Seguiu-se numa segunda parte o debate de um tema atual em formato de mesa-redonda, que este ano incidiu sobre as | JUL 2025 16 “Barreiras à importação de agrocommoditiies na UE”, tanto no que respeita às medidas que podemos designar ESG (do inglês environment, sustainability and governance), como na ameaça que representa a diminuição de meios de proteção das cargas e matérias-primas em armazém.
Que balanço faz da edição? Superou as expetativas?
A edição deste ano confirmou a Bolsa ACICO como uma iniciativa consolidada no panorama nacional. O número de participantes aumentou ligeiramente, de acordo com as expetativas, e as apresentações e mesas-redondas tiveram uma qualidade elevada e debates muito participados.
Para finalizar, que tipos de iniciativas e atividades a ACICO organiza regularmente além da Portugal’s Commodities Exchange?
A ACICO faz formação e seminários sobre temas atuais do interesse dos associados e do setor.