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Reserva do Vale Velho. Um projeto de biodiversidade, sustentabilidade e cultura local no Parque Natural da Serra da Estrela

Reserva do Vale Velho.  Um projeto de biodiversidade,  sustentabilidade e cultura local no Parque Natural da Serra da Estrela

A Reserva do Vale Velho tem como missão a recuperação de um espaço de montanha degradado pelo abandono e incêndios, convertendo-o num espaço heterogéneo rico em biodiversidade e cultura local, situado no Parque Natural da Serra da Estrela. Por detrás deste projeto, está Ana Teresa Matos, a vencedora da 4ª edição do Programa TalentA.

Explique-nos um pouco como nasceu o seu projeto e como o define.

A Reserva do Vale Velho é um projeto cuja missão é a recuperação de um espaço de montanha degradado pelo abandono e incêndios, convertendo-o num lugar onde os humanos se relacionam com a Natureza em harmonia. Pretende-se criar um espaço heterogéneo, rico em biodiversidade e cultura local, que seja resistente às diversas ameaças atuais que têm degradado o meio rural. Esta ideia surgiu ao longo do tempo com a minha tomada de consciência sobre as questões ambientais e do mundo rural, tendo amadurecido com os estudos e ao longo da nossa experiência no terreno. Em 2018, eu e o André adquirimos uma quinta com cerca de 100ha no coração do Parque Natural da Serra da Estrela. Era uma terra agrícola abandonada há cerca de 15 anos, completamente coberta de matos, que trabalha mos desde 2021 para a reconverter num mosaico de pastagens naturais, culturas tradicionais e floresta autóctone.

 

Que espécies nativas estão a ser reintroduzidas no Vale Velho? De que forma contribuem para a recuperação do ecossistema local?

As da floresta, que existiria antes da influência humana, como carvalho-negral, carvalho-roble, azinheira, mostajeiro, vidoeiro, sabugueiro, cerejeira-brava, freixo, pilriteiro, entre outras. As três primeiras são as que existiriam em maior abundância, e nas quais estamos a apostar em maior quantidade com sementeiras em larga escala. Colhemos bolotas de árvores locais para mantermos a genética. Em zonas mais inclinadas ou pedregosas estamos a recuperar a floresta densa que existiria outrora, que ajudará a regular a hidrologia e a servir de barreira contra o fogo dado a menor combustibilidade destas espécies e o microclima mais húmido que criarão. Nas terras mais planas pretendemos conciliar a pastagem com árvores em baixa densidade, imitando o montado alentejano, mas com as espécies daqui. Isso trará vários benefícios, como a maior fertilidade dos pastos pela relação simbiótica com as árvores (queda de folhas que fertilizam o solo, maior disponibilidade hídrica no solo, proteção contra geadas...), mais alimento para o gado (frutos e folhas), e melhoria no habitat promovendo o regresso de muitas espécies.

 

Quais são os impactos observados até agora na biodiversidade local após a implementação do projeto?

Criámos um mosaico paisagístico benéfico para inúmeras espécies e para o aumento da resistência ao fogo através do destroçamento de matos (cerca de 35ha), que são agora pastagens herbáceas em recuperação com a ajuda do pastoreio rotativo pelas ovelhas, notando-se já melhorias significativas neste habitat sobretudo através do aumento da diversidade de espécies e aumento da produção de matéria vegetal herbácea. Aqui e ali já se vêm pequenas árvores autóctones. Temos assistido a um retorno de diversas espécies da fauna tais como o escaravelho rola-bostas, o corço, o veado, a lebre, o tartaranhão-caça dor, entre muitos passeriformes e espécies de insetos.

 

Que práticas de agricultura sustentável está a implementar no projeto?

Fazemos agricultura biológica certificada recorrendo a técnicas tradicionais que conjugam o ancestral com o conceito de permacultura, tais como a utilização do rebanho para o afilhar do centeio, os cães para a proteção do rebanho e culturas, a utilização de estrume como forma de fertilização, a recuperação de açudes e levadas para a rega dos lameiros, a consociação de espécies na horta e a criação de agroflorestas. Preservamos raças e variedades ancestrais como a ovelha bordaleira Serra da Estrela, o cão da Serra da Estrela de pelo curto, a abelha ibérica, o centeio de variedade local, hortícolas como o milho branco e a feijoca, assim como variedades de maçã e ameixa locais.

 

Quais têm sido os maiores desafios que encontrou na recuperação da área de “Casal das Pias” até agora?

O incêndio de 2022 foi um grande retrocesso: os terrenos arderam por completo, destruindo cerca de metade das pequenas árvores semeadas ou de regeneração natural que já estavam protegidas, todo o souto plantado nesse mesmo ano terá agora de voltar a ser enxertado, e as pastagens que estavam a evoluir bastante bem ficaram novamente colonizadas por matos. O solo empobreceu bastante com a erosão.

 

Como a cultura local é preservada no contexto do projeto? Pode dar exemplos de tradições ou práticas que estão a ser revitalizadas ou protegidas?

Neste momento a confeção artesanal de queijo da Serra que aprendi com queijeiras da região é a prática principal. Recuperámos uma casa com um amigo que sabe a técnica tradicional de construção em pedra. Também estamos a preservar a cultura local através do património que são as raças e varie dades locais, assim como as práticas agrícolas tradicionais que já foram mencionadas.

 

Quais são os próximos passos do seu projeto para os próximos anos?

Continuar a melhorar o rebanho, enxertar os castanheiros e plantar mais, fazer a manutenção das pastagens, aumentar o pomar de sabugueiros. Abrir a unidade de produção artesanal e iniciar a transformação de produtos para venda ao público. Continuar a realizar o apoio à regeneração da floresta autóctone.

 

Para terminar, foi a 4ª vencedora do Programa TalentA. Como o apoio do Programa TalentA tem sido importante para o desenvolvimento e continuidade do seu projeto?

Até agora mantínhamos os terrenos com a ajuda de vizinhos e contratação de serviços externos. Graças ao Programa TalentA conseguimos comprar o nosso primeiro trator. Precisávamos muito, porque depois do incêndio de 2022 as pastagens ficaram repletas de mato novamente. Será um fator essencial à rentabilização e melhoria do estado produtivo das terras agrícolas, assim como para defesa contra incêndios.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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