“ Este Seminário é a prova de que estamos a trabalhar juntos, a nível nacional, entre o continente e as ilhas. É um orgulho sermos 100% nacionais, com 100% de destilados presentes”, sublinha o vereador João Serra.
João Serra, vereador da Câmara Municipal, abordou a importância da Quinzena Gastronómica da Aguardente DOC Lourinhã, durante o Seminário Internacional – Aguardentes, Territórios e Sustentabilidade. Na sua intervenção, o autarca recorda que este evento começou há 13 anos. “Quando iniciámos esta Quinzena, tínhamos cinco objetivos. Hoje, podemos incluir muitos mais, mas desde o início quisemos dar a conhecer a Aguar dente DOC Lourinhã e o território, promovendo os seus produtos e unindo esforços com todos os parceiros envolvidos”, diz.
Apesar de ser um produto de excelência, a Aguardente DOC Lourinhã enfrenta desafios na promoção, especialmente devido às restrições relacionadas a produtos alcoólicos. Para superar esses obstáculos, João Serra destaca a colaboração com a agência Message in a Bottle e o esforço em integrar a aguardente em diferentes áreas, como a gastronomia, doça ria e novos produtos criativos. “O desafio também é para os novos estudantes e futuros empreendedores”, apela.
Enoturismo como alavanca para o desenvolvimento territorial
João Serra reforçou o potencial do enoturismo como uma alavanca para o desenvolvimento territorial. A Lourinhã, embora ainda em fase de estruturação neste segmento, já apresenta avanços significativos, principalmente através do “storyte lling” em torno das suas principais marcas e da Quinzena Gastronómica.
“Temos um segmento que tem crescido muito. Torres Vedras e outros municípios já consolidaram o enoturismo, e nós estamos a fortalecer a oferta como um produto que tem grande potencial de crescimento.” Um dos pilares do sucesso da Quinzena Gastronómica, com a integração do Aguar dente DOC Fest, é a colaboração entre municípios e entidades, como Torres Vedras e Peniche, além de instituições nacionais, como o INIAV.
Recorde-se que a 13ª Quinzena Gastronómica da Aguardente DOC Lourinhã decorreu entre os dias 8 e 22 de novembro e reuniu 19 restaurantes da região, que apresentaram mais de 40 pratos criados especialmente para harmonizar com a Aguardente DOC. Este evento enogastronómico destaca-se como uma excelente oportunidade para explorar a culinária local e descobrir como a Aguardente DOC Lourinhã pode elevar a experiência gastronómica, seja em pratos tradicionais ou em criações inovadoras.
Aspetos históricos da Aguardente DOC Lourinhã
Pedro Belchior, investigador do INIAV
No âmbito do Seminário Internacional Aguardentes, Territrios e Sustentabilidade, o painel dedicado à Região da Lourinhã e à Aguardente DOC Lourinhã evidencia um produto de excelência enraizado na tradição, mas com um olhar atento para a ciência e o futuro. O painel contou com a intervenção de Pedro Belchior, investigador do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV, I.P.), que partilhou a sua experiência de mais de cinco décadas com a aguardente da Lourinhã. Tudo começou em 1970, logo após Pedro Belchior terminar o serviço militar. Foi desafiado pelo diretor do então Centro Nacional de Estruturas Vitivinícolas a investigar a aguardente da Lourinhã, uma região que outrora fornecera aguardente para o Vinho do Porto.
Compreender as características das aguardentes da Lourinhã
“Eu não fazia ideia do que era a aguardente da Lourinhã (…). Descobri que a região já não era produtora de aguardente para o Porto, mas fiquei curioso sobre porque tinha sido tão relevante no passado”, lembra o investigador. O primeiro passo foi compreender as características das aguardentes da Lourinhã e investigar as razões do seu prestígio histórico.
Pedro Belchior recorda que iniciou os trabalhos em parceria com a Adega Cooperativa da Lourinhã, aprendendo sobre destilação e técnicas utilizadas na região. “Trabalhámos com aparelhos de destilação por pratos e com alambiques tipo Charanté, semelhantes aos usados no Cognac. Foi essencial basearmo-nos na bibliografia do Cognac para entender como otimizar o processo”, afirma.
A pesquisa focou-se na produção de aguardente a partir de uvas da região e no aperfeiçoamento da destilação. A fermentação era feita sem a introdução de sulfitos, e a aguardente era envelhecida em madeira, permitindo o desenvolvimento de características únicas.
A descoberta do papel da madeira no envelhecimento foi uma etapa crucial. Pedro Belchior visitou a tanoaria Sardinha e Leite, em Vila Nova de Gaia, para aprender sobre a produção de vasilhas de madeira específicas para aguardentes. “Foi uma homenagem à primeira vasilha que usei. Aprendi como se fabricavam cartolas, algo que desconhecia completamente. Utilizámos 12 cartolas para envelhecer aguardentes produzi das no Centro Nacional de Estruturas Vitivinícolas”, conta.
A investigação científica também trouxe descobertas inesperadas. Pedro Belchior e o colega Luís Carneiro identificaram, pela primeira vez, a presença de fucose, um açúcar importante no perfil químico das aguardentes envelhecidas.
“Usávamos cromatografia de papel, que hoje parece algo do tempo da pedra. Por sorte, num cromatograma, notámos uma mancha que nunca tínhamos visto antes. Era a fucose. Foi um momento marcante, fruto do acaso, como muitas descobertas científicas”, sublinha, reforçando ao mesmo tempo que esta descoberta destacou a complexidade química das aguardentes da Lourinhã, diferen ciando-as de outras aguardentes vínicas.
Aguardente de Medronho na Serra Algarvia
Ludovina Galego, professora Adjunta na Universidade do Algarve
Durante o Seminário Internacional Aguardentes, Territórios e Sustentabilidade, Ludovina Galego, professora adjunta na Universidade do Algarve, no painel - Aguardentes de Diferentes Territórios - partilhou a sua trajetória de mais de 30 anos dedicados à valorização e controle da qualidade da aguardente de medronho na Serra Algarvia. Nos anos 1990, quando começou a sua pesquisa, havia um forte preconceito associado à aguardente de medronho. Notícias apontavam, erradamente, para altos níveis de metanol, alimentando uma imagem negativa do produto. Ludovina Galego esclareceu que, embora o fruto do medronho produza metanol devido à sua alta concentração de pectina, os níveis estão dentro dos limites legais nacionais e comunitários. “De facto, ela é uma aguardente com metanol, mas nunca teve excesso”, explica, destacando o papel de pesquisa em derrubar esse tabu.
Outro grande desafio inicial era a baixa qualidade da aguardente produzida na época. Práticas inadequadas, como a fermentação em recipientes de madeira ou plástico, comprometiam o produto final, que apresentava alta acidez. A professora liderou um esforço de identificação e análise de boas práticas de produção, com o apoio de guardas-florestais e instituições como a Direção Regional de Agricultura.
Foram realizadas fermentações experimentais e análises laboratoriais para determinar as etapas críticas do processo, como o momento correto para cortar a cabeça na destilação. De acordo com Ludovina Galego, com o tempo, essas práticas resultaram em significativas melhorias na produção, “elevando a qualidade da aguardente de medronho e já temos muitos bons produtores”. Ludovina Galego, destacou os desafios enfrentados pela produção de medronho, especialmente os incêndios florestais e as alterações climáticas. Um exemplo emblemático foi o incêndio que destruiu o primeiro ensaio de clones de medronheiro em Monchique, atrasando o ciclo produtivo. “Como os pomares levam pelo menos quatro anos para produzir frutos, quando ele estava pronto para começar a produzir, ardeu (…) em vez de levarmos 4 anos para começar a ver o efeito desses clones, vamos esperar 8 ou 10 anos”, afirma.
A aguardente de medronho como produto de qualidade
Apesar das adversidades, Ludovina Galego acredita que a aguardente de medronho tem conquistado espaço como produto de qualidade. “Hoje, as pessoas sabem o que é uma boa aguardente e já procuram por ela”, regista. No entanto, a professora ressalta que ainda há lacunas no marketing e na organização do setor, para além disso com os efeitos das alterações climáticas a percentagem de produção do medronho está a baixar.
Perspetivas sobre a Aguardente de Medronho na região Centro de Portugal
Goreti Botelho, professora Adjunta na Escola Superior Agrária de Coimbra
Goreti Botelho, professora Adjunta na Escola Superior Agrária de Coimbra – Instituto Politécnico de Coimbra, na sua apresentação destacou aos presentes três dimensões centrais na de medronho na região Centro: a evolução do cultivo, os avanços tecnológicos e as oportunidades económicas associadas ao medronheiro. Tradicionalmente colhido em áreas naturais, o medronho tem sido cada vez mais cultivado em pomares plantados.
Muitos produtores a investir em medronheiro
Segundo Goreti Botelho, muitos produtores estão a investir em plantações de medronheiro que já somam hectares significativos. Além disso, a Escola Superior Agrária de Coimbra tem desempenhado um papel crucial na seleção clonal, promovendo a utilização de plantas propagadas com maior qualidade e uniformidade, as quais já estão distribuídas por várias regiões do país. “A Escola Superior Agrária de Coimbra tem ao longo dos últimos anos trabalhado bastante na área da seleção clonal (…) trouxe também a perspetiva da tecnologia de produção porque tem sido feito um longo caminho na melhoria da produção para atingirmos mais qualidade na produção de aguardente de medronho.
Não só aguardente mas também fruto em fresco e outras aplicações
Uma perspetiva daqueles que são os interessados e os potenciais produtores de aguardente de medronho que estão a pensar dedicar-se à produção de medronheiro para produção de aguardente, mas também para a produção do fruto em fresco ou para outras aplicações de medronho e que veem nesta fileira algo que lhes pode trazer maior valor eco nómico e é uma área que vai crescer ainda mais nos próximos anos”, argumenta.
O medronheiro destaca-se como uma planta resiliente, capaz de se regenerar em poucos anos após incêndios. Essa característica torna-o especialmente valioso no contexto das alterações climáticas e da gestão florestal.
Goreti Botelho sublinha que o medronheiro pode ser utilizado como ferramenta de ordenamento do território, ajudando a criar linhas de contenção contra incêndios devido à sua menor inflamabilidade em comparação com outras espécies florestais. Contudo, a produção de aguardente enfrenta desafios de escala. Para superar essa limitação, a professora destaca a necessidade de os produtores se organizarem em associações e ampliarem a plantação de medronheiros.
A aguardente de perada uma forma de agregar valor
Miguel Guisado, produtor de aguardente de perada de pera Rocha
A aguardente de perada de pera Rocha é um exemplo de como os produtos tradicionais podem agregar valor. Miguel Guisado compara a perada à sidra de maçã: “A perada está para a pera como a sidra está para a maçã”. A aguardente de perada, diz o produtor, “é uma aguardente de fruta muito suave e aromática, com um intenso aroma de pera. Pode ser apreciada em cocktails, fresca, ou como digestivo. Além disso, tem aplicações gastronómicas, como flambar sobre mesas ou carnes”. Embora seja um nicho de mercado, um produto premium, a aguardente de perada é uma forma de preservar o valor dos pomares tradicionais, que são menos suscetíveis às doenças. Entretanto, Miguel Guisado, mostra-se preocupado ao falar da incapacidade de conter a devastação dos pomares que levou muitos produtores a arrancar as árvores, substituindo--as por vinhas, macieiras ou até olivais. “Estou apreensivo porque se por um lado a pera estava a ser muito mal valo rizada, já existia um grande problema em termos de rendi mento onde os agricultores não tinham poder económico para investir e conseguir controlar ou minimizar estes efeitos, e agora perdem a sua oportunidade de produção caso não haja um apoio rápido por via das entidades governa mentais”, conclui o produtor.