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O nosso sistema “Protect & Connect” e um projeto inovador nesta linha que a sua vez tem mais de 20 anos no mercado. Através dos dispositivos IDAL podem-se inocular vacinas sem o recurso a agulhas. O portfólio IDAL já inclui várias soluções de vacinas intr

O nosso sistema “Protect & Connect” e um projeto inovador nesta linha que a sua vez tem mais de 20 anos no mercado. Através dos dispositivos IDAL podem-se inocular vacinas sem o recurso a agulhas. O portfólio IDAL já inclui várias soluções de vacinas intr

A Língua Azul (LA), também conhecida como Febre Catarral Ovina, é uma doença epizoótica com etiologia viral, transmitida por pequenos insetos voadores pertencentes ao género Culicoides. A doença pode afetar qualquer espécie ruminante, doméstica ou silvestre, se bem que sejam os ovinos aqueles mais severamente afetados. Atualmente reconhecem-se 27 diferentes serotipos do vírus da LA, apresentando como principal característica o facto de não desenvolverem imunidade cruzada entre si.

Situação em Portugal

 A presença do vírus da LA em Portugal já não é um tema novo, tendo os primeiros casos no nosso país sido registados em 1956. Desde então, foram já detetados diversos serotipos ao longo dos anos, transitando entre períodos em que efetiva mente foram detetados vários focos, com outros intervalos em que não foram reportados quaisquer surtos da doença. Ao longo da última década, os serotipos 1 e 4 foram os responsáveis pelos casos clínicos registados, facto que tornou a vacinação contra estes serotipos obrigatória.

Contudo, no final do ano transato deparámo-nos com duas “novidades” relativamente a serotipos ainda não reportados em território nacional. Um deles é o S8, com o primeiro e único foco identificado num efetivo bovino no distrito de Portalegre, em novembro de 2024. Ainda assim, sem dúvida que foi a introdução do S3, detetado pela primeira vez em setembro de 2024, que maior impacto tem causado ao setor pecuário.

Apesar de numa fase inicial o surto ter sido apenas detetado no Alentejo, a disseminação ocorreu de forma bastante rápida e à presente data já foram reportados casos deste serotipo um pouco por todo o território de Portugal Continental, afetando rebanhos de ovinos e, em menor escala, bovinos.

Surto do S3

Embora seja extremamente difícil quantificar os custos atribuídos à doença, sabe-se que os mesmos serão avultadíssimos, cifrando-se na ordem de vários milhões de euros. Segundo dados apresentados pelo Ministério da Agricultura, num período de quatro meses mais de 1.800 explorações terão sido afetadas, com cerca de 40.000 mortes de ovelhas a serem atribuídas a este vírus. Ressalve-se, ainda assim, que estes valores estarão bem abaixo da realidade, já que os mesmos apenas retratam os casos oficialmente notificados. De modo a atenuar o enorme impacto económico sentido pelos produtores de ovinos em Portugal, o Ministério da Agricultura criou uma linha de crédito para apoiar esses agricultores. O presente apoio (Portaria nº107/2025/1) prevê o paga mento aos produtores que tenham realizado a notificação da doença, o valor de 48 euros por ovino morto. Ainda que o valor não possibilite a recuperação do valor total das perdas ocorridas, constituirá uma importante ajuda para garantir a sustentabilidade económica do setor.

Sinais clínicos lesões

Um ovino com LA exibe sinais inespecíficos, como hipertermia, apatia e isolamento dos restantes animais. Por outro lado, apesar do nome da doença, a cianose e protusão da língua, não estão entre os sinais mais comuns. O quadro clínico mais característico engloba edema da cabeça, salivação excessiva e, muito frequentemente, manifestações respiratórias, como dispneia e corrimento nasal (seroso, mucopurulento ou sanguinolento). Devido às alterações microvasculares, é frequente observar-se lesões de ulceração ou erosão na cavidade bucal e mucosa nasal. Por fim, registam-se alguns casos de claudicação e vários abortos. O exame post-mortem caracteriza-se pela observação de lesões de hiperémia, hemorragias (na base da artéria pulmonar e na terminação cardíaca da aorta) e ulcerações. Na cavidade torácica pode estar presente edema pulmonar severo, com possível hidrotórax ou hidropericárdio.

Medidas de controlo e perspetivas futuras

O controlo de vetores e a epidemiovigilância são essenciais para proteger os animais e minimizar os impactos da doença, no entanto sem dúvida que é a vacinação que constitui a ferramenta mais eficaz para diminuir as taxas de morbilidade e mortalidade. É de ressalvar que para uma proteção efetiva dos rebanhos, o programa de vacinação não deverá contemplar apenas os serotipos obrigatórios (S1 e S4), sendo importante alargar-se a outros serotipos em circulação, como o S3.

Idealmente deveríamos utilizar uma vacina que conferisse imunidade cruzada para a totalidade dos serotipos. Contudo, segundo indicações da indústria farmacêutica, tal situação não se perspetiva uma possibilidade real num horizonte temporal próximo. Deste modo, é fundamental decidir correta mente, em função dos indicadores epidemiológicos, quais os serotipos para os quais se deve imunizar os efetivos.

É recomendável, por exemplo, que se tenha em consideração a situação epidemiológica em Espanha, onde em 2024 se registou pela primeira vez a circulação simultânea de 4 serotipos diferentes. Desde 2020, já foram publicados, por parte da DGAV, 37 Editais a republicar as normas sanitárias sobre a doença em Portugal, o que reflete a complexidade e dinâmica com que a situação da LA tem evoluído (Edital nº 87, publicado a 26 de março de 2025). Tal situação tem-se revelado um enorme desafio não só para as autoridades sanitárias, mas também para os próprios produtores e Médicos Veterinários assistentes, de forma a adequarem os seus procedimentos aos regulamentos vigentes. Entre essas atualizações incluem-se, entre outras, a definição das áreas afetadas para cada serotipo, as normas relativas à vacinação ou as restrições à movimentação animal. Sobre as medidas de controlo do Culicoides, as mesmas devem ser encaradas como medida complementar à vacinação, e nunca como a pedra basilar do controlo da LA. Aliás, a questão do aquecimento global tem permitido a manutenção de populações do vetor em épocas do ano em que usual mente elas desapareciam, algo que não se tem verificado ao longo dos últimos tempos, já que o vetor tem sido identificado durante praticamente todo o ano.

Em suma, os recentes surtos de LA em Portugal têm-se revelado desafiantes, exigindo uma resposta coordenada e urgente por parte de várias entidades. As referidas estratégias de controlo são essenciais para proteger os animais e minimizar os impactos económicos e sociais desta doença tão devastadora.

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