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Uma Adega com 25 anos de história e um futuro promissor nos Biscoitos

Uma Adega com 25 anos de história e um futuro promissor nos Biscoitos

A Adega Cooperativa dos Biscoitos celebrou em 2024 os seus 25 anos de existência, marcando uma trajetória de crescimento, reconhecimento internacional e profundo enraizamento na tradição vitivinícola da Ilha Terceira. Durante a visita guiada, os membros da direção e técnicos partilharam a evolução da Adega, os novos desafios e a visão para o futuro.

“Constituída há 25 anos, à medida que os anos foram passando, temos tido um reconhecimento, quer interno, quer externo, pelo trabalho desenvolvido junto dos produtores locais, com um crescimento exponencial, culminando com a obtenção de alguns prémios. Fomos medalhados, alguns pela certificação. A nossa Adega foi a primeira na Ilha a certificar vinhos”, afirma Cecílio Faustino, presidente da Direção da Adega Cooperativa dos Biscoitos, ao mesmo tempo que se diz orgulhoso: “Hoje exportamos para 45 países”.

Esse espírito de modernização estende-se também à nova identidade visual, com a apresentação da marca comercial Magma Wines, simbolizando um novo ciclo para a Adega.

“A nova direção achou por bem, após 25 anos, mudar a imagem. Não esquecendo o passado, mas apresentando uma imagem moderna para o presente e futuro, explica o vice-presidente da Direção Fernando Oliveira. “Queremos colocar a Adega num patamar diferente em termos de imagem e crescimento. A qualidade dos vinhos já está lá, com a assinatura do nosso enólogo Diogo Lopes, onde já vincou bem o seu nome a nível Nacional e mesmo Internacional. O foco é o Verdelho dos Biscoitos”. Neste contexto, surge a Associação Cultural de Enófilos da Ilha Terceira, criada para complementar o trabalho da Adega Cooperativa, sobretudo em áreas de apoio direto. “A Associação foi criada por membros da própria adega para desenvolver objetivos complementares”, afirma. “Apostamos na promoção dos vinhos e na criação de novas rotas de eno turismo. Queremos que o visitante entenda o que é a vinha, a casta, o vinho — e sinta que está a viver a história”, sublinha ainda o Vice-Presidente. Além da valorização cultural, destaca-se também o reforço técnico com a entrada de Duarte Pintado, engenheiro agrónomo. “O essencial é ter um corpo técnico. Se queremos dar o passo em frente, isso é fundamental”, destaca.

Atualmente, a cooperativa conta com 76 associados, muitos deles pequenos produtores com parcelas de terreno reduzidas.

“Temos associados com apenas um ou dois alqueires. Temos conseguido atrair novos membros, o que é muito importante”, salienta a direção.

A Gama de Vinhos: Do Magma ao Moledo

“O meu trabalho passa por acompanhar tecnicamente os associados, apoiar na gestão da Adega e enoturismo”, foi desta forma que o engenheiro Duarte Pintado se apresentou aos presentes. Durante a visita o Duarte Pintado destacou três vinhos que expressam a identidade da Adega: Magma: “Foi o primeiro vinho certificado da zona DO dos Biscoitos e da nossa Adega. Um vinho com acidez equilibrada, salinidade e mineralidade, graças ao terroir vulcânico e ao mar. É o nosso best seller”. Moledo: “Transporta o passado para o presente. Um vinho com cor, sabor e aroma mais intensos, como faziam os nossos antepassados”. Tinchão: “O nome vem do utensílio que usamos para levantar os cachos de uva do chão. É um vinho mais leve, pensado para o dia a dia”.

Um futuro assente no passado

Com novas estratégias de imagem, enoturismo e reforço técnico, a Adega Cooperativa dos Biscoitos projeta-se para o futuro sem esquecer os pilares que a sustentaram ao longo destes 25 anos. Ao longo de 2025, a celebração dos 25 anos incluirá vários eventos comemorativos, com especial desta que para a homenagem a sócios fundadores e consequente mente produtores.

Vitorino Nemésio e a herança da vinha

Durante a visita à Ilha Terceira, João Menezes, técnico supe rior de turismo do município da Praia da Vitória e colabora dor da Casa Vitorino Nemésio, foi um dos guias que acompahou os visitantes. Na passagem pela Casa Vitorino Nemésio, espaço dedicado a “uma das maiores figuras da literatura portuguesa no século XX”, João Menezes sublinha que o autor “nasceu aqui em 1901, a 19 de dezembro”. Embora inaugurado oficialmente recentemente, o espaço “já existe desde 2007” e tem como missão “perpetuar e recordar aquilo que é a vida e a obra do autor”. Para o município, esta homenagem é inquestionável: “Não é por acaso que se chama esta cidade a cidade de Vitorino Nemésio”. Mas o legado da Terceira não se esgota na literatura. A agricultura — e, em particular, a viticultura — tem desempenhado um papel fundamental na construção da identidade e da paisagem da ilha. João Menezes explicou como “os primeiros povoadores, sendo eles católicos”, deram prioridade à plantação de cereais e vinha, essenciais para a alimentação e para os rituais religiosos, como a eucaristia. Ainda assim, os desafios foram muitos. “As ilhas eram muito densas em termos de floresta endémica açoriana”, e os solos do interior eram “extremamente húmidos e muito difíceis de trabalhar”. Já junto à costa, onde “ocorreram diversas erupções vulcânicas”, surgiram zonas pedregosas — precisamente onde se estabeleceram as vinhas, com castas adaptadas ao clima insular: Verdelho, Arinto e Terrantez da Terceira.

Para proteger estas vinhas da maresia — a força do mar, particularmente intensa na zona norte da ilha — foram criadas as chamadas curraletas: “muros construídos em torno das vinhas”, que não só as protegem, como “mantêm uma temperatura mais ou menos estável”, criando um microclima favorável. “Há uma diferença de temperatura de cerca de 2 graus do exterior para o interior destas curraletas”, acrescenta o técnico.

João Menezes, técnico superior de turismo do município da Praia da Vitória e colaborador da Casa Vitorino Nemésio, foi um dos guias que acompanhou a Tour.

Apesar do potencial vitivinícola, muitas destas vinhas encontram-se atualmente abandonadas. “É tudo feito à mão (…) tanto a poda, como os tratamentos, e a vindima”, o que “encarece de que maneira a produção do vinho”. O relevo e o espaço reduzido impossibilitam o uso de maquinaria pesada, o que torna todo o processo mais exigente e dispendioso. Ainda assim, há sinais de renovação. “O Governo Regional tem feito uma série de apoios significativos para ajudar na recuperação dessas vinhas”, nomeadamente na “aquisição de estacas de Verdelho, Arinto e Terrantez da Terceira”, com vista ao replantio em áreas tradicionalmente dedicadas à produção de vinho.

Segundo João Menezes, a tendência é positiva: “Nos Biscoitos temos observado um virar de página (…) há cada vez mais pessoas interessadas em recuperar vinhas”.

O aumento do turismo e o interesse crescente em provar o “vinho típico da ilha” têm impulsionado esta recuperação. Afinal, como sublinha, “esses vinhos só se produzem com aquelas castas, naqueles sítios”.

Vinhas nas paredes - Tradição vitivinícola em São Bartolomeu

Durante a visita à freguesia de São Bartolomeu, no concelho de Angra do Heroísmo, Pedro Silva, guia e intérprete nos Açores, realçou uma prática vitivinícola única na ilha Terceira. “Temos aqui uma forma de plantar as videiras de uma maneira muito peculiar, de uma maneira propriamente tradicional aqui dos Açores”, explica, referindo-se à técnica de cultivar vinhas encostadas a muros largos de pedra basáltica. Estes muros, além de aproveitarem a abundância de pedra vulcânica — “era uma maneira de arrumar essa pedra” —, permitiam que as videiras crescessem sobre eles, libertando o solo para outros cultivos como a batata.

Este aproveitamento do espaço torna a zona de São Bartolomeu “bastante única”, sendo “o único sítio na ilha onde realmente isto acontece”, acrescenta o guia.

A visita revelou ainda vestígios da antiga circulação de carros de bois. “Isto são marcas feitas por carros de bois, antigamente”, disse Pedro Silva, apontando os sulcos na pedra vulcânica provocados pela passagem repetida dos veículos de tração animal. Estes carros transportavam, entre outros produtos, “pipas de vinho para embarcações que estariam a fundear das aqui perto”, com destino a outros pontos da ilha, como Angra. “Naquela altura era mais fácil pelo mar”, recorda, destacando também o papel do vinho nas trocas comerciais com as especiarias trazidas pelas rotas da Índia.

 

 

 

 

 

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