C om 135 anos de história, a Casa Agrícola Brum atravessou três séculos, sempre com um compromisso firme com a terra, o vinho e a tradição açoriana.
Fundada em 1890, após o declínio da monocultura da bata ta-doce, a casa nasceu como resposta à escassez de uvas causada pela filoxera que assolou a Europa, produzindo inicialmente álcool industrial a partir da batata-doce, utilizado para fortificar vinhos no exterior. Quem nos conta esta história é Luís Brum, representante da quarta geração da família: “Fazia-se um álcool industrial que depois era mandado para o exterior dos Açores (…) havia falta de uvas para vinho e muito menos para destilação”, recorda. O fim da produção de álcool representou uma viragem na atividade da casa. A sua proibição originou até uma revolta popular nos Açores — a revolta da batata-doce — e reacendeu pedidos de maior autonomia regional: “Quando foi proibido, deu origem a uma revolta popular chamada revolta da batata-doce. E nessa altura os Açores pediram pela segunda vez cremas à autonomia”, explica.
Hoje, a Casa Agrícola Brum está já na quinta geração, mas mantém viva a mesma filosofia: trabalho, persistência e ligação à terra.
“Quando perguntaram à primeira geração como conseguiu recuperar a vinha após a filoxera, respondeu apenas com trabalho e persistência. O que junta agora também resistência”, partilha Luís Brum. Nos anos 80, após o sismo, terminou a produção de vinho a granel. Desde então, a aposta passou a ser nos vinhos de qualidade, engarrafados, com destaque para as castas Verdelho e Terrantez da Terceira. “Apenas produzimos vinhos de qualidade (…) vinhos brancos de mesa e vinhos licorosos”, insiste.
Mas cultivar vinha nos Açores é uma tarefa exigente. O clima imprevisível, com quatro estações num só dia, e a força do mar tornam o trabalho um verdadeiro exercício de resiliência.
“Aqui, temos quase quatro dias por dia. O mar é agradável, mas às vezes é um bom herbicida”, comenta com ironia. A produção é feita com recursos próprios, sem apoios públicos. As uvas são adquiridas a viticultores locais, com preços justos: “Este ano pagámos 4,5 euros por quilo de uva. É o preço do mercado”, afirma Luis Brum. Mais do que ambicionar escala, a prioridade é a continuidade e preservação do legado familiar e finaliza: “Não queremos ser os maiores. A ideia é manter a tradição da família”.
Parte dessa missão é cumprida através do Museu do Vinho, instalado na própria Casa Agrícola, onde se preservam objetos, documentos e memórias. Um espaço criado para proteger e partilhar o passado com as novas gerações.