U ma das grandes virtudes da economia circular é transformar aquilo que antes era considerado um resíduo num recurso valioso para outro setor. Mas quando falamos de valorização de biorresíduos ou resíduos orgânicos vamos muito além de resolver um problema ambiental, ela cria a oportunidade de regenerar os solos e fechar o ciclo da natureza.
Senão, vejamos. Os resíduos orgânicos — provenientes das próprias explorações agrícolas, agroindústrias e também dos resíduos urbanos — precisam de um destino adequado, caso contrário representam um grave problema ambiental. Ao tratarmos estes resíduos por processos de compostagem controlada produzimos um fertilizante natural ou corretivo orgânico, que devolve matéria orgânica aos solos. Matéria orgânica essa cujo défice nos solos é hoje reconhecido como um dos principais fatores que limitam o rendimento das culturas e a resiliência dos sistemas agrícolas. Ou seja, a terra gera alimentos que depois de satisfazerem as nossas necessidades devolvem alimento à terra. Eis o ciclo perfeito, ou há ainda mais potencial?
Na Veolia, a economia circular dos resíduos orgânicos é uma prioridade. E o potencial das soluções de valorização orgânica tem ainda muito por explorar, com benefícios também ao nível da descarbonização da nossa economia. Mas, vamos por partes.
Composto agrícola feito com resíduos cuja origem desconheço: posso mesmo confiar?
Desde 2010 que a Ambitrevo, hoje uma empresa do Grupo Veolia, gere o CIVO – Centro Integrado de Valorização Orgânica, localizado em Coruche. Esta unidade foi, ao longo dos anos, evoluindo tecnologicamente, em termos de capacidade instalada de receção e de produção de composto, sofrendo obras de ampliação, tornando-se uma das maiores unidades de compostagem do país. Os resíduos admitidos no CIVO são orgânicos e minerais, não perigosos e têm caraterísticas físicas e químicas que lhes conferem potencial para serem diretamente aplicados na agricultura, através da valorização agrícola direta, ou para serem integrados num processo de digestão aeróbia (compostagem), com vista à obtenção de um fertilizante orgânico. Exemplos de resíduos admitidos são as lamas de ETAR, resíduos da indústria agroalimentar; resíduos de unidades de transformação e preparação de produtos alimentares; estrume e chorume de animais (suínos, aves, ovinos); resíduos provenientes de atividades domésticas e municipais, resultantes da manutenção de jardins e parques; resíduos de atividades florestais, biomassa proveniente de limpezas florestais. Estes resíduos, em função da sua origem, podem ter uma textura mais fina ou mais grosseira, assim como diferentes níveis de humidade e apresentarem também caraterísticas químicas distintas, que é necessário conhecer e avaliar.
O processo de mistura, para constituição das pilhas, obe dece a regras e cuidados específicos, uma vez que o seu rigor influencia todo o processo e, consequentemente, as caraterísticas do produto final. Após o término do processo de compostagem, o composto é crivado e encaminhado para maturação, sendo posteriormente pesado e expedido para destino final.
Nutrifolium: Inovação para potenciar os Solos e as Culturas
No CIVO da Ambitrevo, através do processo de compostagem, é obtido o composto Nutrifolium®, um corretivo agrícola orgânico de ótima qualidade, maturado de grau V e classe de qualidade II. Este produto é constituído, essencialmente, por matéria orgânica e macro e micronutrientes indispensáveis à vida das plantas e foi desenvolvido a pensar nas necessidades dos solos e culturas do nosso país. Pelas suas caraterísticas químicas e organoléticas, constitui um fertilizante e corretivo, por excelência, de solos agrícolas (agricultura tradicional, florestas, jardins, entre outros).
A utilização de composto reduz a densidade do solo, tornando-o mais fácil de ser trabalhado e mais poroso, melhorando a estrutura e reduzindo, dessa forma, a erosão, contribuindo para uma maior resistência aos períodos de seca, ao proporcionar uma utilização mais eficiente e racional da água. O composto final é obtido, utilizando técnicas rigorosas de controlo, quer na seleção dos materiais que irão formar as pilhas, quer durante o decorrer de todo o processo, sendo que cada lote é submetido a análises que atestam as suas caraterísticas e garantem a sua qualidade. Para o setor agrícola, a empresa disponibiliza apoio técnico na monitorização da capacidade produtiva da exploração, assegurando os equipamentos e serviços adequados a cada fase do processo, com especial importância para os equipamentos de distribuição ou localização do corretivo orgânico, que disponibiliza a custo zero para a aplicação do Nutrifolium®.
Sabia que? O novo CIVO - Centro Integrado de Valorização Orgânica da Ambitrevo, empresa do Grupo Veolia, apostou fortemente em tecnologia de automação e controlo centralizado, tendo sido também instalada uma central fotovoltaica para autoconsumo, contribuindo assim para a transição energética e para a sustentabilidade.
E se dos resíduos orgânicos produzirmos energia?
Com um elevado valor metanogénico, os resíduos orgânicos podem ainda contribuir para a produção de energia verde (calor, eletricidade ou gás para a rede), graças às tecnologias de Digestão Anaeróbia.
A digestão anaeróbia consiste num processo biológico que transforma, na ausência de oxigénio, matéria orgânica em biogás (rico em metano e CO2), e em resíduo sólido ou pastoso, chamado digerido. Rico em orgânicos e minerais não degradados, o digerido pode passar por outra fase de trata mento para ser valorizado. O biogás produzido pode ser convertido em biometano, uma alternativa sustentável ao gás natural tradicional. Segundo a Agência Internacional da Energia, será a segunda fonte renovável com maior crescimento até 2050, após a energia solar.
A Veolia, no âmbito do seu programa estratégico GreenUp 24-27, definiu como prioridade estratégica o desenvolvimento da produção de biometano a partir da valorização de resíduos orgânicos em Portugal.
Flávio Ascenço, Líder técnico da World Biogás Association e da Associação de Digestão Anaeróbica e Biorrecursos afirmou recentemente, numa conferência organizada pela Veolia em Coruche, que “apenas 2% dos resíduos orgânicos no mundo são reciclados via digestão anaeróbia. Temos um potencial inexplorado de 98%. Se todo este potencial fosse aproveitado, o mundo conseguiria reduzir em 11% as emissões globais de gases com efeito de estufa até 2030. A península ibérica não só tem potencial, como tem recursos excedentários de biorresíduos e solos degradados, que podem beneficiar do uso dos digestatos gerados pela digestão anaeróbia”
Outras Soluções Circulares para a Agricultura
Reutilização de águas residuais:
A escassez de água obriga a repensar o ciclo hídrico na agricultura. A Veolia dispõe de soluções de reutilização de águas residuais tratadas, com te nologias avançadas de filtração e desinfeção, permitindo irrigar culturas de forma segura e sustentável. Em Portugal, a Veolia dispõe já de referências relevantes na irrigação de vinhas com recurso a águas residuais tratadas, com o aproveitamento dos nutrientes e fertilizantes presentes nas mesmas. R
Reciclagem de plástico:
No âmbito da atividade de reciclagem de plástico, a Veolia recebe já hoje algumas tipologias de plásticos de agricultura, nomeadamente tubagens de rega e plástico de cobertura dos terrenos, procurando apoiar o setor com soluções que possam minimizar o impacto deste resíduo no ambiente. Numa lógica de economia circular, uma parte do plástico reciclado na Micronipol, empresa do Grupo Veo lia localizada em Ourém, tem já hoje por destino a produção de tubagens e outros materiais para uso no setor agrícola. A Veolia coopera também com associações de agricultores e universidades em projetos que visam desenvolver novas soluções para os plásticos da agricultura.