“Para se produzir vinho tem de se ter amor, tem de se gostar disto. Se isto não for feito com algum carinho, não há hipóte ses”, afirma Dimas Pires, produtor e fundador da Dimas Adega, situada na costa norte da Ilha Terceira, nos Biscoitos. Há mais de 20 anos a dedicar-se ao vinho, Dimas Pires conhece bem as exigências e os desafios únicos da vitivinicultura açoriana. “As vinhas aqui, primeiro, são de muito trabalho, estão no chão. Não existem vinhas aramadas na nossa Ilha”, refere. Esta escolha não é por acaso: “As vinhas no chão [existem] para a proteção dos ventos (….) quando vêm para cima com a ressalga comem as uvas todas”, afirma o produtor.
Solos vulcânicos e castas únicas
O terreno fértil de origem vulcânica, composto por bagacina de basalto, dá origem a uvas com teores elevados de açúcar e acidez, o que torna castas como o Verdelho e o Arinto única dos Açores. No entanto, a colheita é dura: “Eu acarto as uvas com 470 metros de comprimento, com elas às costas, até ao caminho (…) levo três semanas para apanhar as uvas. No continente isso era apanhado numa hora com máquinas. Aqui, o processo é todo muito físico”, diz.
Um clima imprevisível
E não é só o trabalho árduo que complica a produção. “Temos um outro problema que são os pássaros que nos comem as uvas, temos o próprio clima que também está sempre em constante alteração (…) conseguimos ter quatro estações no dia”, sublinha Dimas Pires. Segundo o mesmo, isso favorece doenças como o míldio: “É extremamente complicado tratar (…) se não fizer os tratamentos todos rigorosos, não se consegue fazer nada”
Da tradição ao reconhecimento com Denominação de Origem (DO)
Apesar de tudo, o projeto evoluiu. “Comecei a fazer o tradicional vinho de cheiro, depois passei para os vinhos de garrafa. Este ano já fiz um DO, portanto o Verdelho vai ser um DO”, caracteriza. Com produções muito limitadas – “neste ano, em 8 alqueires de vinha produzi 250 litros de Verdelho” – cada garrafa torna-se rara e valiosa. Quanto é que pode custar uma garrafa dessas? perguntamos. A resposta foi rápida. “30 euros no mínimo (…) senão não estamos aqui a fazer nada”, responde. Além dos vinhos, a Dimas Adega produz também licores tradicionais. “São cerca de 11 e vamos lançar agora mais dois (…) tem-se de inovar e fazer coisas engraçadas e diferentes”, regista. Apesar da qualidade dos produtos, o produtor lamenta: “há um excesso de burocracia para obter certificações”.
Adega dos Sentidos une emoção e inovação
Na Ilha Terceira, a Adega dos Sentidos nasceu de uma decisão pessoal e emocional. “Este projeto, de facto, é emoção. Aquilo que nós queremos passar é de muita emoção, por que foi um projeto trabalhado pelo meu sogro durante uma vida”, partilha Sandro Mendonça o rosto do projeto. Com a perda da esposa, o sogro acabou por se afastar da vinha. “Ele também acabou por desistir um bocadinho deste projeto e entregou as vinhas ao meu cunhado (…) que ao fim de alguns anos, também quis vender. E tomámos a opção, eu e a Mónica, de adquirir e comprar-lhe as vinhas”, recorda. Foi assim que nasceu a Adega dos Sentidos, que hoje já conta com duas referências no mercado: Incerteza e Lágrima do Atlântico. “Felizmente tivemos a sorte de encontrar um enólogo perfeito, que nos interpretou excecionalmente”, diz Sandro Mendonça, referindo-se a Jorge Alves, e também ao filho deste, Pedro Alves, que os têm acompanhado desde o início.
As castas eleitas são: o Verdelho – “a casta mais nobre e elegante dos Açores” – e Grenache, que surpreendeu o produtor ao adaptar-se bem ao terroir insular. “Temos dois vinhos feitos com a mesma casta: um Blanc de Noir e um Rosé”, afirma.
Para Sandro Mendonça, produzir vinho nos Açores é, sobre tudo, um ato de resiliência: “Trabalhamos em cima de pedra praticamente. Os nossos solos são pobres, mas o produto que daqui tiramos é de excelência (…). Aqui não há espaço para máquinas, o trabalho é todo feito à mão”. O clima, imprevisível e caprichoso, também não facilita. “Hoje está um temporal terrível (…) e é bem possível que daqui a pouco esteja a fazer sol”, diz. Adversidades como estas fazem parte do quotidiano, tal como a escassez de mão de obra. “Acho que era importante começar a incentivar os produtores a poderem ter acesso a ajudas (…) para que hou vesse também mais pessoas a trabalhar nas vinhas, talvez esse fosse um ponto de partida (…). Tenho 47 anos e talvez seja dos produtores mais novos da Ilha Terceira, vejamos”.
Do coração da ilha para o continente
Curiosamente, o reconhecimento da Adega dos Sentidos começou fora da Ilha. “Foi mais fácil lançar os vinhos no con tinente do que nos Açores”, admite Sandro Mendonça. Hoje, os vinhos da marca já estão em vários restaurantes no con tinente e começam a marcar presença nos Açores também.
“Explicar ao consumidor porque o vinho é caro é a nossa verdadeira luta”
Pedro Alves é o enólogo da Adega dos Sentidos, um projeto jovem que abraçou com o pai, Jorge Alves. “Apaixonámo-nos pela ilha, pelas pessoas e pelo potencial vínico da DO Biscoitos”, afirma. Com 2,2 hectares de vinha, a Adega aposta na inovação: “Optámos por erguer vinha ao alto numa zona protegida das marés salinas – e funciona muito bem”, refere o enólogo. A coragem e criatividade levaram- os a plantar também Grenache e a criar vinhos como o Rosé e o Blanc de Noir. As condições são exigentes. “Temos 90% de humidade todos os dias. Temos de fazer tratamentos semanais. As nossas videiras são umas guerreiras”, diz. Para o enólogo o grande desafio é justificar os preços: “Temos custos absurdos. Explicar ao consumidor porque o vinho é caro é a nossa verdadeira luta”. Apesar disso, vê com entusiasmo o futuro da marca: “Estamos numa fase muito gira, já temos o nosso perfil e agora é continuar ou criar gamas novas”.
A história da Adega Materramenta
Na Freguesia dos Biscoitos, a Adega Materramenta dá continuidade a uma herança familiar que remonta ao bisavô da engenheira Madalena, proprietária do projeto juntamente com o senhor Luís. “O projeto começa numa fase como brincadeira”, recorda André Costa, responsável técnico da Adega. Foi em 2012 que a vinha foi herdada e, em 2016, nasceu oficialmente a Materramenta, hoje já com investimentos significativos e uma forte aposta no enoturismo. Um dos marcos recentes foi a aquisição de uma antiga casa senhorial construída em 1893 por Francisco Maria Brum. “Estamos agora numa fase de reconstrução dos edifícios antigos, recuperação das vinhas e a iniciar uma nova fase do nosso projeto, que engloba enoturismo, visitas e alojamento local”, explica André Costa. A Materramenta combina duas técnicas de viticultura: a tradicional “curraleta” – típica dos Açores – e a mais recente “vinha armada”, adaptada a terrenos onde antes se cultivavam hortas. “Usamos esta técnica com um compasso de plantação mais curto e uma altura mais baixa para maior proteção contra os ventos. Estamos numa zona ventosa e esta técnica permite proteger a vinha também da ressalga – os ventos marítimos com sal que queimam a planta – como a geada no continente”, detalha o técnico.
André Costa explica que a curraleta não serve apenas para proteção contra o vento
“Começaram a perceber, passados uns anos, o efeito térmico que estas pedras de basalto criam. Absorvem a radiação do sol durante o dia e libertam-na durante a noite. Isso aumenta a temperatura à volta da planta e melhora a concentração de açúcares, aromas e sabores na uva. No pico do verão, aqui pode haver mais 5 a 6 graus do que a temperatura ambiente”, esclarece. Mas nem tudo são vantagens. “Temos menos produção por hectare porque há menos plantas e a mão de obra é muito difícil de encontrar. O custo de produção aqui é elevado, mas a qualidade dos vinhos é superior”, sublinha ainda o técnico.
Produção de vinhos biológicos nos Açores é “uto pia, devido às condições edafoclimáticas”.
André Costa, reforça a abordagem equilibrada na viticultura que privilegia tratamentos biológicos e nutricionais para fortalecer as plantas, recorrendo aos químicos convencionais apenas em situações extremas: “As plantas são como nós, se estiverem fracas as doenças atacam mais facilmente, se elas estiverem fortes mais facilmente conseguem resistir”. Sublinha que grande parte dos tratamentos visam dar “força e vigor” à planta, permitindo-lhe resistir melhor a pragas e doenças.
Questionado sobre a possibilidade de produção de vinhos biológicos nos Açores, o técnico considerou tratar-se de uma “utopia, devido às condições edafoclimáticas (...). Pode-se tentar, mas, em vez de se produzirem 1000 garrafas, produzem-se 10”. André Costa também reflete sobre a utilização de castas híbridas no passado, como a Isabella ou Jaqué da Madeira, apontando que, apesar de serem resistentes e produtivas, “em termos qualitativos fica muito aquém comparando com o Verdelho e o Terrantez do Pico”.
Outra curiosidade nas vinhas da Materramenta é a presença de figueiras.
“As figueiras eram um complemento à economia familiar. Durante a crise da filoxera, as pessoas plantaram figueiras onde as vinhas morreram. Descobriram depois como resolver o problema com os porta-enxertos americanos, mas muitas figueiras ficaram. Servem para consumo, mas também para atrair os pássaros. Como a época da colheita dos figos coincide com a das uvas, os pássaros preferem os figos”, afirma André Costa. “Trabalhamos com duas castas: Verdelho e Arinto dos Açores. Nesta propriedade é 100% Verdelho. Esta vinha vai agora para o terceiro ano de vida. A partir do quarto ou quinto ano é que começa a produzir com qualidade e quantidade. Estamos agora na fase de formação da vinha”, explica André Costa. Essa formação inclui uma técnica muito própria. “Utilizamos a técnica de educar a vinha. O objetivo é puxá-la para crescer na horizontal, junto ao empedrado. Colocamos uma pedra sobre o ramo para que ela fique baixa. Durante o inverno, com a madeira a endurecer, a vinha mantém essa forma e não cresce para cima. Quanto mais perto da pedra, melhor. Ganha mais calor, mais concentração de açúcares, mais aromas”, remata.
Entre blends e medalhas da Casa Agrícola Vitivinícola Rui Martins
Foi na Casa Agrícola Vitivinícola Rui Martins que os participantes da Tour foram recebidos com um almoço e uma experiência vínica profundamente ligada à história e identidade dos Açores. Rui Martins, o produtor, partilhou a filosofia por trás dos seus vinhos e da sua ligação à terra. Um dos destaques foi o Nobre Marrada, descrito como “um vinho simples de beber, um vinho fácil de beber”. Este branco não tem uma casta definida: “Absorvemos nesta marca todas as pequenas produções que são feitas cá e que queiram fornecer uva a nós”, explica Rui Martins. O resultado é um blend flexível, mas sempre fiel aos padrões da casa: “A uva tem que estar num nível de maturação aceitável e com um nível de salubridade bastante elevado”, privilegiando a acidez natural das castas locais.
O nome do vinho tem origem familiar: “O meu bisavô tinha uma forte ligação à tauromaquia. E daí o símbolo do vinho ser um touro. Nobre Marrada porque Marrada tem a ver com a tauromaquia e a parte do Nobre que achamos que é uma questão nobre da nossa família”
Outro vinho apresentando foi o Quinta das Ilhas, a primeira marca da Casa e com certificação pela Comissão Vitivinícola Regional (CVR). “É um vinho que só vem para a rua se tiver pontuação suficiente para colheita selecionada”, conta o produtor, revelando que todas as colheitas têm obtido pontuações de 80 a 83 pontos, muito acima dos 75 exigidos. A colheita de 2023, com predominância de Terrantez da Terceira (ou Arinto dos Açores), também inclui Verdelho e Riesling. Este vinho conquistou recentemente a Medalha de Prata no concurso Mundus Vini, reafirmando a sua qualidade.
A tradição do vinho de cheiro
Por fim, Rui Martins partilhou a tradição do vinho de cheiro: “Foi uma solução dos nossos avós para sair do problema da filoxera e ter alguma coisa para beber em casa”. Ainda hoje produzido a partir de castas híbridas como a Isabella, é o vinho das festas populares, especialmente do Espírito Santo. “É trabalhado com a mesma qualidade que os brancos. Está aqui disponível para quem o quiser beber”, convidou Rui Martins com hospitalidade.